Baker Street Boy


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Não sou fã de Jô Soares, mas hei de reconhecer: o gordinho escreve bem. Li apenas um dos livros dele, O Xangô de Baker Street, e foi o suficiente para, por exemplo, indicar as demais obras, como a recente “As esganadas”. Sim, porque existem dois tipos de autor. Há o que acerta a mão somente uma vez e é capaz de enganar, e o que precisa de pouco para mostrar que merece a confiança do leitor.

O segundo tipo, por alguma razão mística, é facilmente identificável. E foi assim que eu compreendi que Jô Soares fazia parte desse time. Em O Xangô, ele conta a história do desaparecimento de um violino Stradivarius (para quem não sabe, é uma marca famosa) e do surgimento do primeiro serial killer brasileiro. As investigações dos crimes recaem sobre o cachimbo de ninguém menos que o detetive Sherlock Holmes, apoiado, é claro, por Doutor Watson.

O romance é uma comédia muito bem escrita por três razões principais. A primeira, sem dúvida, é o jeito do escritor para as anedotas, as tiradas, as ironias e afins, coisa que a maioria das pessoas conhece, dada a carreira dele na televisão. Como segundo ponto, coloco a habilidade para costurar a história, tanto com descrição, quanto com um relativo suspense. Por fim, é preciso salientar a riqueza de contextualização histórica. Qualquer leitor pode perceber que Jô Soares pesquisou a fundo os personagens (como Chiquinha Gonzaga e Olavo Bilac), costumes e cenários da segunda metade do século 19 para escrever O Xangô.  A confirmação vem nas 5 páginas finais, dedicadas à Bibliografia (coisa rara em romances, convenhamos).

Fugindo ao tema, não posso deixar de registrar: ao reabrir o livro, depois de tantos anos, encontrei um bilhetinho no qual anotara uma lista de telefones de amigos da época de colégio. Imagino que todos ou quase todos estejam desatualizados. No verso, há os pedidos que eu iria fazer na lanchonete Come-Come (já falecida), a saber: 1 Come-Bacon completo, 1 Especial de carne sem verdura, 1 Come-Milho, 6 brigadeiros e 1 batata frita grande. O Come-Milho era para mim.

Antes de finalizar este texto, uma correção: na verdade, não existem dois tipos de autor. O terceiro, do qual eu havia me esquecido, também é bem comum. É aquele que não acerta a mão jamais. E o pior é que, mesmo assim, às vezes, se dá bem.

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