Barata seca


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Não sou um leitor contumaz de clássicos, mas, dia desses, vi A metamorfose, de Franz Kafka, em destaque numa livraria. O preço era bom, comprei. E me surpreendi.

O livro é tão bom assim? Bem, eu não achei nada espetacular. Tem um toque de humor interessante e descrições bem colocadas, mas o que surpreende mesmo é a narrativa em si.

A história, quase todo mundo já conhece: Gregor Samsa é um caixeiro-viajante que, certo dia, acorda em forma de inseto (provavelmente uma barata, embora não haja uma menção explícita à espécie). A primeira “estranheza” de A metamorfose é que o livro já começa no exato momento do despertar do personagem. Sempre achei que houvesse uma história anterior, uma contextualização, talvez uma motivação para a mudança de forma.

Logo após o anúncio da metamorfose, é verdade, Kafka contextualiza a história de Gregor Samsa e sua família. Faz isso, sobretudo, a partir dos pensamentos do próprio homem-inseto, agora incapaz de se comunicar com os parentes. E são nessas reflexões que o livro choca. Por quê?

Simples: espera-se que alguém, depois de ganhar uma casca e várias perninhas, encare o mundo de uma forma diferente e esteja interessado, sobretudo, em sua transformação (Como isso foi acontecer? Quando vai acabar? Vai acabar?). Mas Gregor vivencia tudo isso concentrando-se nos problemas financeiros da família, na repercussão do seu estado no emprego (e no que o chefe vai pensar, diante das suas faltas) e, mais adiante, na maneira com que os pais e a irmã o tratam. Para mim, uma boa crítica velada sobre as preocupações humanas.

Enfim… A metamorfose em si é tratada de maneira banal, seca, e a história acaba sem ter, exatamente, um início e um fim. É quase como um diário… de uma barata. Que conta o que vê, quais são as suas novas preferências gastronômicas, como é se equilibrar nas patinhas e andar em círculos e subir em paredes, entre outras experiências pouco convencionais.

Curta e de leitura fácil, a novela de Franz Kafka merece uma olhada. Pode não mudar sua vida, nem fazer o seu coração palpitar, mas rende algumas risadas e reflexões interessantes sobre a vida – dos homens, dos insetos e dos homens-insetos.

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