Os nossos meninos


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Na última semana, uma amiga me contou que havia sido “compelida” pela irmã a comprar – e ler, claro – dois ou três livros. Dentre eles, Capitães da areia, um dos muitos clássicos do baiano Jorge Amado. Achei por bem recordar a minha história com a obra, que foi censurada pelo governo de Getúlio Vargas, por se tratar supostamente de propaganda comunista. Centenas de exemplares, inclusive, foram queimados em praça pública, em Salvador.

Como já relatei em outros textos, não sou muito adepto a clássicos da literatura. Por isso, relutei um pouco em adquirir o livro de Amado. Só o fiz por insistência da minha ex-namorada. E não me arrependi.

Capitães da areia retrata o cotidiano, com destaque para algumas “aventuras”, de um grupo de crianças e adolescentes moradores de rua de Salvador, na Bahia. Embora se passe na década de 1930, a história poderia ter sido escrita ao longo deste ano. Ou já não existem “moleques” que dormem ao relento, que furtam por diversão e para comer, que recebem olhares desconfiados a cada dia? Jovens que endurecem na tragédia e amadurecem na infâmia?

Bem, acredito que existem. E é por isso que o livro de Jorge Amado ainda pode ser tão bem compreendido por leitores atuais minimamente conscientes do que se desenrola às margens da sociedade. Embora o romance tenha termos, expressões e indicações de lugar característicos da época (e da Bahia), não há maiores dificuldades para compreendê-lo. Os episódios são atraentes e prendem a atenção, muitas vezes devido à abordagem psicológica e afetiva dos meninos de rua – algo com que, convenhamos, pouca gente se preocupa.

Merece destaque, ainda, o início do livro, composto por reportagens de jornais da época, relatando, sem medir as palavras, as “atrocidades” cometidas pelo grupo dos Capitães da Areia e pedindo medidas mais severas por parte do poder público – não para prevenir, e, sim, para castigar. Sim, certas coisas nunca mudam.

Para finalizar, uma curiosidade: todas as histórias de violência, sexo, álcool, fumo, solidão, trauma e amor de Capitães da areia me chocaram menos do que a nota final do livro. O que ela dizia?

Que era tudo verdade.

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