A Vida Secreta da Guerra – Comentários


robert-capa

Os dois parágrafos a seguir estão nas páginas 70 e 71 de A Vida Secreta da Guerra, de Peter Beaumont.

“O plano de passar um mês inteiro de férias passeando pela Grã-Bretanha com Emily, minha parceira americana, antes que ela vá por sete meses para o Iraque desintegrou-se depois de dois dias de erros. Já estamos de volta a Londres, em vez de irmos para a Escócia. Está claro para nós que a decisão já está tomada. Com o início da guerra no Líbano, o que eu quero é entrar em um avião. Mas o que eu preferiria mesmo era simplesmente não ter que tomar uma decisão.

Quantas vezes já me vi nessa posição? As ausências nos Natais e nos aniversários da família. Os meses, que se convertem em anos, longe dos meus filhos, da minha ex-mulher – sempre com a vaga autopromessa de que no próximo ano, talvez, eu me dedique a um estilo de vida mais sedentário e humano. Reconheço que se trata basicamente de uma questão de ego, um mal colocado senso de autoimportância – se é uma grande história, eu tenho que estar lá.”

Trabalhei durante três anos em jornal, até o último mês de março. E, no sábado passado, tentei explicar para não-jornalistas o que me fazia correr certos riscos “desnecessários” na minha profissão. Dentre eles, destaquei três:

a) entrar em uma favela com uma câmera no pescoço (e ser ameaçado por usuários de drogas, possivelmente crack);

b) acompanhar a pé, só com caneta e bloquinho nas mãos, uma dúzia de policiais armados que se preparavam para um provável tiroteio (que não aconteceu);

c) entrar na casa para entrevistar o morador que ameaçava se explodir, com um botijão de gás. Essa está registrada em vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=nDP49d9sN_M

Então… acho que minhas explicações no último sábado não surtiram muito efeito. Nem espero que surtam, na verdade. Até porque eu mesmo não consigo me convencer delas. Essa coisa de o jornalista aceitar o risco (não é todo jornalista – e isso não chega a ser demérito) é algo que fica entre o sobrenatural, o instintivo e o inconsciente.

Pode ser a falta de noção do perigo, o dito senso de imortalidade da juventude, a vontade de se aventurar, o peso da responsabilidade e da competitividade… Ou até mesmo, quem sabe, “essa questão de ego, um mal colocado senso de autoimportância”, como se permite dizer o repórter Peter Beaumont, um veterano em cobertura de guerras, num (raro) exemplo de humildade jornalística.

Talvez, algum dia, eu encontre uma boa explicação. Por enquanto, contento-me com a ideia, falaciosa ou não, de que “se é uma grande história, eu tenho que estar lá”.

Imagem: perto o suficiente

A fotografia em destaque nesta postagem é uma das mais conhecidas do húngaro Robert Capa, cujas lições ajudaram a alimentar o meu espírito de jornalista – e, certamente, de muita gente por aí. Capa tinha, como lema, a seguinte observação: “Se suas fotos não estão boas, é porque você não está perto o suficiente”.

Em 2013, comemora-se o centenário de nascimento de Capa, que cobriu cinco guerras de perto, incluindo a Guerra Civil Espanhola (imagem desta postagem) e a Segunda Guerra Mundial. Morreu em 1954, ao pisar em uma mina, enquanto acompanhava o exército francês na Indochina.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s