Remando contra a maré


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Entre os principais objetivos deste blog, está o estímulo à leitura. E é por isso que, às vezes, nos sentimos remando contra a maré.

Hoje, por exemplo, foi divulgado o resultado do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) 2012, um relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre o desempenho escolar de adolescentes com 15 anos de idade. E o Brasil piorou no ranking de leitura.

Segundo o novo Pisa, o Brasil atingiu 410 pontos nesse quesito, dois a menos do que o registrado na última edição do relatório, em 2009, e 86 a menos do que a média da OCDE. Quase metade (49,2%) dos alunos não atinge o nível 2 (dos 6 existentes) de desempenho na avaliação, sendo incapaz, por exemplo, de deduzir informações do texto e estabelecer relações entre diferentes partes dele.

Assim, o país ocupa a 55ª posição, entre 65 “concorrentes”. Está atrás, por exemplo, de Uruguai e Montenegro. No topo do ranking, com 570 pontos, está “Xangai – China”, considerada uma economia à parte, assim como “Hong Kong – China”, que ficou na segunda colocação (545 pontos). Outros três países asiáticos completam a lista dos 5 melhores: Cingapura, Japão e Coreia do Sul. Já no último lugar, aparece o Peru, com 384 pontos.

Causas e opiniões

As razões para o desempenho ruim? Segundo o relatório da OCDE, estranhamente, a inclusão de jovens nas escolas influencia negativamente no resultado do país. Em 2003, 65% das pessoas com 15 anos estavam matriculadas, enquanto, em 2012, o índice era de 78%. O “problema” é que vários dos novos estudantes são provenientes de áreas rurais ou integram grupos sociais vulneráveis, isto é, têm menos preparo e acabam por puxar para baixo a pontuação. O documento destaca, ainda, a defasagem escolar, com muitos adolescentes cursando séries incompatíveis com sua idade.

Ambas as considerações são plausíveis, na minha opinião, mas insuficientes para explicar a queda. A segunda, aliás, pode até estimular a incorreta prática da aprovação sem méritos, já comum em diversos governos, para fins de propaganda política amparada em estatísticas. Ora, a defasagem escolar é consequência – e não causa – do baixo rendimento dos estudantes. Não é proibindo a repetência, mas, sim, investindo em educação (e em outros aspectos sociais que influem sobre ela, como alimentação, segurança, ), que os resultados vão melhorar.

Sugestões

Investimentos em educação, aliás, precisam ser encarados de uma forma mais séria no país. A destinação de 75% dos royalties do petróleo ao setor deverá significar um total de quase R$ 370 bilhões em 30 anos. Boa notícia? Sem dúvida. Mas é necessário, também, repensar o modelo educacional brasileiro, usando o dinheiro não apenas para a construção de novas escolas, mas também para a reforma e modernização de unidades já existentes, qualificação e melhoria das condições de trabalho dos professores, projetos diferenciados para os estudantes, etc.

Tenho minhas reservas quanto ao direcionamento estratégico para determinadas carreiras que interessem mais ao “desenvolvimento nacional”, já que isso restringe a liberdade de escolha dos alunos. No entanto, sou partidário de programas que ofereçam alguns benefícios ou facilidades a quem ingressar naquelas áreas, como o próprio Ciência Sem Fronteiras. O risco, aí, é o modelo social e econômico adotado por cada governo. Uma gestão interessada na expansão da construção civil, por exemplo, estimulará a formação de engenheiros, o que, mais cedo ou mais tarde, poderá ser repelido pela população ou por uma nova administração. Acredito que, num país em que partidos de ideologias diferentes revezam-se no poder, esse tipo de planejamento educacional não tem eficácia garantida.

No campo específico da leitura, vejo, como essencial, a ampliação da rede de bibliotecas públicas. Entre Recife, Jaboatão dos Guararapes e Olinda, há somente cinco, para uma população aproximada de 2,5 milhões de pessoas. Outros espaços, como museus interativos e centros artísticos, ajudariam a compor um bom cenário educacional para além das salas de aula.

Tudo isso pode ter seu efeito ampliado se as administrações públicas reservarem parte do dinheiro para o marketing. Mas não o marketing predominante atualmente, com publicidades fundadas em estatísticas e imagens bonitas (e, muitas vezes, forjadas) que servem para convencer a população dos feitos políticos. Muito mais útil seria investir na publicidade de informação e estímulo: apresentar à população onde estão e como funcionam as bibliotecas e centros culturais, promover e divulgar mais concursos e olimpíadas de leitura e escrita, incentivar o contato com a cultura a partir de exemplos bem sucedidos, etc.

Concordo, ainda, com a ideia de que o ensino da literatura e o “apoio” à leitura nas escolas brasileiras segue um trajeto equivocado. Não é razoável obrigar crianças e adolescentes que não têm afinidade com os livros a lerem clássicos de Machado de Assis e Aluísio de Azevedo, por exemplo. Obras como essas, que se utilizam de termos e construções gramaticais antigas e, por vezes, se referem a contextos distantes da população atual, dificilmente conseguirão atrair um jovem, levando-o a ampliar seu portfólio literário. Valem, na verdade, para leitores mais “experientes”, que tenham a capacidade de encará-las de uma forma mais complexa, absorvendo informações históricas e linguísticas, promovendo análises e comparações relativas à contemporaneidade e a sua realidade social… Enfim, aproveitando a riqueza do livro, em vez de ler e virar as páginas no “piloto automático”, com a cabeça voltada para a questão na prova da semana que vem.

Para encerrar as sugestões, a mais óbvia de todas: fiscalizar o desvio do dinheiro público, punir os eventuais responsáveis por ele e garantir a boa utilização dos recursos. Hoje, a bem da verdade, já existe um orçamento razoável para a educação no país. Mas parte dele não passa nem perto de escolas, bibliotecas, professores e afins, ou, pelo menos, não é aplicado da maneira mais sustentável e eficaz.

Quem sabe com mudanças como essas, a maré mude de lado, para o Livro Leve Solto e para o Brasil?!

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