Entre homens e salamandras


salamandra

“Tão poderoso quanto 1984 e tão impactante quanto Admirável mundo novo, A guerra das salamandras é um dos clássicos mais importantes da literatura mundial”. Era assim que começava o texto na orelha do livro. E foi por desconfiar de uma comparação tão hiperbólica que eu decidi comprá-lo.

Para inicio de conversa, preciso dizer que nunca li Admirável mundo novo. Venho procurando sem sucesso nas livrarias. Mas já tive o prazer de embarcar em 1984. Até escrevi uma resenha sobre a obra-prima de George Orwell para a versão anterior do Livro Leve Solto. Já que volto a mencioná-la agora, resolvi republicar o texto aqui.

Pois bem… Ser tão poderoso quanto 1984 não é fácil. E, para ser sincero, não acho que A guerra das salamandras consiga chegar lá. Talvez essa conclusão seja resultado, justamente, do fator surpresa que me arrebatou na leitura do primeiro – e, obviamente, não se repetiu no segundo. Pode ser ainda que, diante da orelha pretensiosa, eu tenha criado uma barreira psicológica… Algo na linha de: “Duvido que seja tão bom assim”. Preconceito, enfim.

À parte a discordância em relação à frase inicial da orelha, não posso negar a qualidade de A guerra das salamandras, do escritor tcheco Karel Capek (pai da palavra “robô”). O livro é riquíssimo em imaginação. O esforço ficcional do autor vai além da história em si, referente à descoberta e posterior exploração (econômica, bélica, etc) de salamandras com grande capacidade produtiva. O desenrolar da trama é amparado, frequentemente, por documentos e arquivos (também imaginários) que tratam dos animais e da relação entre eles e os humanos. No final das contas, Capek tem êxito em criar um universo realista para um enredo (quase) absurdo.

O “quase” do parágrafo anterior tem uma boa razão de ser. Assim como 1984, o livro tcheco carrega o mérito de tocar na ferida sem pôr o dedo. Um olhar mais crítico é capaz de revelar diversas alusões  ou, ao menos, de estabelecer analogias veladas entre a história da descoberta e exploração das salamandras e outros processos da história da humanidade. Basta ler a obra traçando ligações mentais com política, movimentos sociais, economia e guerra. Capek mostra-se um mestre da ironia neste ponto, apostando na graça e no discurso dos personagens para transmitir as mensagens desejadas.

Ah! Para compensar a discordância em relação à orelha, destaco que assino embaixo dos trechos de resenhas do The New York Times, do The Washington Post e do The Philadelphia Inquirer impressos na contracapa do livro. A guerra das salamandras, escrito em 1936, é uma fábula que previu os movimentos totalitários e a corrida armamentista das décadas seguintes. Uma bela leitura, afinal, tanto como paródia e análise histórica, quanto como romance.

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