Livro Leve Solto entrevista: SILVÉRIO PESSOA


SILVERIO PESSOA“Sou leitor e acredito na formação do leitor como forma de conhecimento e mudança de mundo” – Silvério Pessoa

O micróbio da leitura contaminou Silvério Leal Pessoa ainda na juventude. Nascido em Carpina, em 6 de janeiro de 1962, um dos principais representantes da atual música pernambucana é um apaixonado pelas letras e garante que, delas, tira proveito para a profissão e para a vida.

Depois de trabalhar como bancário e professor da rede estadual, Silvério profissionalizou-se como músico na década de 1990, emergindo junto ao Movimento Mangue. Hoje, com a carreira artística consolidada (no Brasil, lançou seis álbuns e um DVD; na Europa, quatro CDs – um inédito por aqui), ele divide o tempo entre os estúdios, os palcos e as salas de aula.

Graduado em Pedagogia e Psicopedagogia e mestre em Ciência da Religião, Silvério parte agora em busca do doutorado. Enquanto isso, amplia sua participação no meio acadêmico, ministrando cursos em instituições de ensino superior do estado. Uma atividade que, assim como a música, lhe permite trabalhar conhecimentos e disseminar aqueles que já apreendeu.

Ao Livro Leve Solto, Silvério Pessoa falou sobre sua relação com a academia e a influência da literatura na sua arte e na sua forma de ver o mundo. Confere aí!

O que você anda lendo nos últimos tempos?

Até a defesa de minha dissertação de mestrado na Unicap (Universidade Católica de Pernambuco), eu estava lendo muito teologia, religiosidade popular, cultura, principalmente os meus teóricos, Néstor Garcia Canclini, Axel Honneth, e muitos textos de artigos em francês, principalmente o teórico Daniel Loddo. Agora, terminei de ler muitos textos de uma disciplina que ministro já faz dois anos na Fafire (Faculdade Frassinetti do Recife), na pós-graduação de Gestão Cultural. Então, foram vários textos e livros sobre gestão em cultura, mercado da música, história da indústria fonográfica. No momento, leio Valter Hugo Mãe e também Jeffrey Satinover (O cérebro Quântico).

Qual é seu gênero ou estilo literário favorito?

Ficção Científica. Amo Isaac Asimov, Braulio Tavares. Adoro romances com maneiras diferentes de estrutura, e nesse contexto adoro Daniel Galera. Os contos de Marcelino Freire também me encantam sempre.

Você tem um autor favorito? Ou alguns que possa destacar?

Néstor Garcia Canclini, sou fã. Ariano Suassuna e Neil Gaiman. João Cabral de Melo Neto, Saramago, João Guimarães Rosa, Pablo Neruda (visitei duas de suas casas em Santiago do Chile este ano), Clarice Lispector. Difícil determinar, são muitos autores que gosto e que sempre leio.

Você tem um envolvimento considerável com o meio acadêmico. Concluiu um mestrado em Ciências da Religião e, com alguma frequência, ministra aulas e minicursos em instituições de ensino superior. De onde vem essa ligação? Que áreas do conhecimento mais lhe atraem?

Educação e música sempre estiveram comigo em toda minha vida. Não vejo diferença de campos de ação. O palco para mim é um espaço no qual estou estabelecendo uma comunicação, um diálogo, uma troca, tal e qual acontece em uma sala de aula. Na área pedagógica, procuro me envolver em palestras de formação docente que estejam relacionadas com cultura popular, religiosidade, música, arte em geral. Me sinto bem trabalhando nas duas áreas, inclusive pelos desafios da educação e da música no Brasil. Acredito que educação e arte podem salvar a humanidade desse caos que impera no mundo, mesmo camuflado de um momento de desenvolvimento e civilização. O mundo precisa se educar para a vida e não apenas para o mercado de trabalho.

Você se considera um leitor assíduo? Quantos livros lê por mês ou por ano, em média?

Sim. Sou um leitor. Leio desde jovem. Leio jornais diariamente, leio revistas específicas de minhas áreas, sempre estou com um livro na bolsa ou na mesa. Sim, sou leitor e acredito na formação do leitor como forma de conhecimento e mudança de mundo. Como tenho uma atividade intensa no campo acadêmico ou nas palestras para professores que venho desenvolvendo, leio todos os dias e fica até difícil de precisar o número de livros que leio por mês. Mas, são vários textos, principalmente para montagem das conferências. Na música, minhas canções, após dois anos participando da oficina de literatura de Raimundo Carrero, passei a escrever e refazer os textos, uma técnica que aprimora sua canção. Passei a demorar mais para finalizar uma letra, uma melodia diante de um texto. Nesse meu CD NO GRAU, a literatura esteve mais presente com parcerias com o poeta e compositor Marco Polo, Climério do Piauí, a voz e texto como vinheta de Raimundo Carrero na música “A tortura do tempo”. Foi um CD que esteve mais próximo da literatura.

A tortura do tempo, do álbum NO GRAU:

A leitura lhe influencia no seu trabalho musical? 

A leitura é um redemoinho que envolve sua cabeça de ideias e mundos. Você passa a ser vários, a vivenciar os personagens ou as teorias. Seu mundo muda a partir de cada parágrafo e isso, claro, ocupa um lugar precioso no que você escreve e cria. Pode ser melodicamente ou no texto de uma canção. Criamos mundos e fantasiamos situações, dependendo do que você queira comunicar ou criar algo para o leitor ou o ouvinte de sua canção. Literatura e música estão relacionadas.

E na sua forma de ver o mundo, em quê a leitura impacta ou impactou?

Continua impactando quando termino um texto ou finalizo um livro. Já passei semanas impressionado com o que um livro me causou, me impactou. Meu vocabulário conquista mais representações do mundo. Quando leio, minha vida conquista mais formas de simbolizar a vida e isso atenua a determinação da finitude, do mistério da vida e das coisas do universo.

Acredita que algum livro ou autor tenha mudado muito a sua vida ou a sua maneira de conceber as coisas?

Meu universo simbólico foi estruturado a partir da vida na zona da mata norte de Pernambuco, Carpina. A cultura da cana de açúcar, a vida no sítio sem energia elétrica, com as crenças de minha família, a fé do povo, as brincadeiras nos terreiros, a lua, os animais no pasto, as noites de histórias que minha vó contava, a rezadeira Dona Júlia. Por isso que a literatura de João Cabral, Ariano, Gilberto Freire, estão sempre em mim como prosa que definem bem meu mundo, ou minha maneira de ver a vida: um hibridismo entre o campo e a urbanidade. Mas existem vários autores que enriquecem a vida e até nos projetam para novos mundos e novos paradigmas, como Saramago, por exemplo.

Você já publicou um livro, certo? Poderia falar um pouco sobre ele? De onde veio a ideia, como foi o processo de publicação e comercialização, o que essa passagem pela literatura significou para você…

O Nômade é um livro decalcado do meu blog que ainda está no ar e que, de vez em quando, eu atualizo. A ideia foi da Bagaço, editora, e foi um projeto feliz. Um livro que conta através de textos e ilustrações, bem diagramado, as minhas aventuras pelos inúmeros países que passei em tour. São episódios curiosos, livros que leio nas estradas, culinária, curiosidades, enfim, um livro colorido e que mostra como sou.

Além de canções, você costuma escrever outras coisas? Em quê a escrita lhe serve?

Como estou sempre relacionado com a  academia, escrevi muito para minha monografia em Psicopedagogia e depois um longo tempo de escrita para a dissertação de mestrado. Minhas canções são criadas sem a pressão de tempo e prazos, escrevo sempre, rascunho, desenho coisas na agenda. Escrevo palavras e delas começo uma música. No momento estou precisando escrever artigos para somar na seleção do doutorado que pretendo fazer, mas não tenho ainda tempo. Sempre estou rascunhando algo. Agora escrevo legendas para minhas fotos no Instagram, adoro fazer isso, e também algumas postagens no Facebook e Twitter. São espaço pequenos e determinantes para se projetar uma ideia, e isso cria uma técnica. Acho muito divertido.

Pensa em publicar um novo livro ou o caminho agora é exclusivamente musical?

Penso em formatar minha dissertação e editar em livro. Ainda não tenho ideia de prazo, mas acho um momento oportuno para Pernambuco ter registrado o que consegui promover com meu mestrado: um diálogo, um estudo comparativo entre a religiosidade popular do sul da França (Occitânia) e a religiosidade popular em Pernambuco. É uma dissertação rica em citações, notas de rodapé, fotos, bibliografia. Gostaria muito de publicá-la. Vamos ver. Canções, escrevo sempre. O projeto é sempre estar aprendendo nesta vida linda e repleta de momentos para descobrir.

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