“A revolução dos bichos” – Comentários, por Yasmin Viana


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A primeira colaboração com comentários sobre um livro em 2014 aborda os pontos convergentes entre a história de A Revolução dos Bichos, um clássico de George Orwell, e alguns episódios recorrentes na trajetória da humanidade. Confira o texto.

ALERTA: O texto a seguir pode conter algumas informações reveladoras sobre a história do livro, sem, no entanto, indicar o seu desfecho.

A revolução dos… bichos?, por Yasmin Viana*

Há algum tempo, ouvi uma frase que dizia mais ou menos assim: “Se quer conhecer alguém, dê poder a ela”. Neste caso, mudemos o alguém por algum animal. Em A Revolução dos Bichos, George Orwell mostra como, em muitos momentos, os oprimidos podem se tornar opressores.

Tudo se passa na Granja Solar. Um dia, o Velho Major, um porco, tem um sonho e fala aos outros animais sobre ele, ressaltando a exploração que sofrem, a crueldade com que os humanos os tratam e a necessidade de se reverter isso através de uma revolução.

Diante da morte do Velho Major, os porcos assumem o papel de líderes, já que eram de longe os mais inteligentes da granja, sabiam ler e eram perspicazes. Bola de Neve, Napoleão e Garganta seriam os sucessores naturais do Velho Major.  Napoleão gozava de maior solidez de caráter, porém Bola de Neve falava mais fácil aos outros. Já Garganta conseguia até fazer chover no deserto. A partir dos ensinamentos do Velho Major, os porcos criam o animalismo, caracterizado pelo respeito mútuo entre os animais, pela cooperação, pela não-exploração e, principalmente, pelo lema “duas pernas ruins, quatro pernas bom”. Ideais ótimos, vontade de revolução, sede de poder. Bem humano, não?

A comparação entre a história da civilização e a experiência dos animais da Granja Solar revela pontos coincidentes. O homem, em sua necessidade de produção excessiva, acaba explorando seu semelhante, causando, naturalmente, desgaste na relação e vontade de que se rompa o ciclo de submissão e opressão. Napoleão e Bola de Neve, por pensarem de maneiras opostas, começaram a concorrer entre si para convencer os bichos. Para isso, nada melhor do que convencer o eleitorado do que apostar em construções, melhorias, moinhos…

A briga travada dentro da Granja Solar, mais uma vez, tem características humanas. A construção do moinho fez com que todos os animais entrassem num ritmo de trabalho exaustivo, exceto, é claro, os porcos. Para eles, valia a ideia do ócio produtivo ou – me permitam fazer o uso de mais um ditado – do velho “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Traçando uma analogia com a Revolução Industrial, os trabalhadores não possuíam outra função a não ser produzir para um pequeno grupo. À grande massa, o que restava era labutar.  Tudo isso entre os séculos 18 e 19… Estamos em qual mesmo?

Assim como na Revolução dos Bichos, os que não possuem instrução frequentemente tornaram-se e tornam-se massa de manobra do Estado e das elites. Pelo visto, quatro pernas e duas pernas, às vezes, podem ter a mesma face da moeda.

* Yasmin Viana tem 22 anos e é estudante de direito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

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