Livro Leve Solto entrevista: FRANCISCO CUNHA


franscisco cunha

“Penso que algumas coisas ‘salvaram a minha vida’. Uma delas foi a leitura” – Francisco Cunha

Sócio-diretor da consultoria de gestão TGI, presidente do Conselho de Administração do Instituto Recife de Gestão, arquiteto e urbanista atento aos problemas e oportunidades das cidades, internauta ativo, escritor e leitor. A diversidade de papéis desempenhados por Francisco Cunha, 56, tem feito dele um dos nomes mais assíduos e relevantes nos debates sociais e urbanísticos que se intensificaram em Pernambuco, nos últimos anos.

Diversidade que pode ser facilmente identificada no currículo literário de Cunha. Já são mais de dez livros sobre gestão empresarial estratégica, em coautoria com os sócios da TGI, além de um escrito em parceria com não-sócios (Pernambuco Afortunado: da Nova Lusitânia à Nova Economia). Somam-se a eles quatro obras que se debruçam sobre aspectos urbanos: Um dia no Recife e Um dia em Olinda (guias para fazer turismo a pé), As lições de Bogotá & Medellin: do Caos à Referência Mundial (sobre a reurbanização das cidades colombianas) e Calçada: o primeiro degrau da cidadania urbana.

Este último, também assinado pelo engenheiro Luiz Helvécio, foi lançado em fevereiro de 2013, com um levantamento sobre as calçadas do Recife e a legislação sobre o tema, os exemplos internacionais e uma série de sugestões para melhorar o cenário local. A ideia, segundo Cunha, é fazer com que as pessoas despertem para a garantia do direito de ir e vir e para a necessidade de reflexão quanto às questões urbanas que influenciam na qualidade de vida.

A obra foi um dos assuntos da entrevista que Francisco Cunha concedeu ao LLS. Ele falou, também, sobre alguns desafios do Recife, a literatura básica para empreendedores, empresários e pessoas interessadas em urbanismo e a importância da leitura na sua formação pessoal e profissional. Confira a seguir.

Você se considera um leitor assíduo? Quantos livros lê por mês ou ano?

Sim. Um leitor voraz. Internet, jornal, revista e livros. A média é de pelo menos dois livros “de cabo a rabo” por mês. Em leitura “diagonal”, acho que uns cinco por mês.

Quais seus gêneros, estilos e/ou autores favoritos?

História, filosofia, biografias, leio sempre, por gosto. Tempos atrás, li tudo que era relevante sobre planejamento estratégico, gestão empresarial e marketing. Continuo lendo o que é relevante sobre perspectivas, tendências e cenários, por dever de ofício.

Teria algum livro que poderia destacar como marcante em sua vida?

Muitos. Na juventude, li praticamente toda a obra de Millôr Fernandes e de Bertrand Russel, pelos quais desenvolvi uma admiração indestrutível. Depois, li muito Edgar Morin e me impressionou vivamente o livro O enigma do homem ou O paradigma perdido, na tradução de Portugal. Também tenho, como uma espécie de livro permanente de cabeceira, a “edição-bíblia” da obra completa de Manuel Bandeira. O Livro Geral do poeta pernambucano Carlos Pena Filho e as obras completas do também pernambucano Joaquim Cardozo funcionam do mesmo modo para mim, como virtuais livros de cabeceira.

O que anda lendo nos últimos tempos?

Atualmente, tenho lido muitos livros sobre urbanismo e sobre gestão de cidades.

Como consultor de gestão, o que indicaria de leitura para empreendedores e empresários? Existe alguma literatura básica que possa ajudá-los na administração de seus negócios?

Sobre gestão propriamente, o básico é a obra de Peter Drucker, em especial as coletâneas publicadas mais recentemente. Indispensável também é ler sobre marketing, e o melhor disso é Philip Kotler, em especial o livro mais recente dele, Marketing 3.0.

Além do seu trabalho como consultor de gestão, você é reconhecido no meio pernambucano pela atuação e posicionamento em questões urbanas. Quais são suas inspirações literárias nesse campo? O que indicaria para quem se interessa pelo tema?

Existem alguns livros recentes importantes sobre esse tema: Centros Urbanos, a maior invenção da humanidade, de Edward Glaeser, Cidades para pessoas, de Jan Gehl, Reinvente o seu bairro, de Cândido Malta Campos Filho. Além disso, para os recifenses, tem um não recente, publicada pela primeira vez em 1948, que é o clássico Arruar, de Mário Sette.

O que a leitura (e, aí, não necessariamente a leitura técnica) lhe influenciou ou influencia na sua forma de ver o mundo e a cidade?

Penso que algumas coisas “salvaram a minha vida”. Uma delas foi a leitura. Outra foi o cinema. Minha visão de mundo é basicamente conformada pela leitura e pelo cinema. Tenho o que poderia chamar de “vício do conceito”. Sinto necessidade de conceituar o que vejo e o que vivo. E isso só é possível com a leitura. Sobre a cidade, por exemplo. Depois que saí da faculdade [formou-se em arquitetura e urbanismo, em 1981, pela Universidade Federal de Pernambuco] e comecei a trabalhar, praticamente abandonei a caminhada pela cidade do Recife (o que fazia desde criança no Espinheiro) e passei a me locomover de táxi e de carro. Andava só no Parque da Jaqueira ou na praia. Depois de mais de 20 anos, voltei a andar sistematicamente e me choquei profundamente com a degradação que vi. Foi aí que voltei a ler sobre urbanismo para entender e conceituar o que estava acontecendo.

De onde veio a ideia de publicar Calçada? O que você espera com o livro?

Veio, justamente, da constatação da destruição do Recife. Da compreensão de que, diante dessa tragédia, a primeiríssima providência é recuperar a dignidade e a qualidade do espaço público do qual a calçada é o “primeiro degrau”. Compreendi, caminhando, lendo e refletindo, que antes de qualquer coisa relativa à mobilidade, o cidadão urbano é um pedestre. E se a calçada, que é o lugar público onde ele pisa, assim que sai do lote privado, não é respeitada porque está em péssimas condições e/ou invadidas por carros estacionados, por exemplo, não se pode esperar respeito por mais nada numa cidade.

Espero que, lendo o livro, as pessoas despertem para essa coisa básica que é a garantia do direito inalienável de ir e vir por calçadas decentes. E que, percebendo isso, como aconteceu comigo, despertem para a necessidade de refletir sobre outras questões urbanas vitais que afetam diretamente a nossa qualidade de vida na cidade. Como a cidade é um dos objetos mais complexos da humanidade, não obstante sua presença cotidiana nas nossas vidas, penso que tratando de uma coisa elementar com a simplicidade possível, sem resvalar para o simplório, estou ajudando a compreender algo básico para poder ampliar o nível de reivindicação cidadã indispensável à mudança que as nossas cidades precisam, muito especialmente o Recife.

Tem pretensões de lançar mais livros, talvez sobre outros temas urbanos?

Sim. Por um acaso, pois não planejei isso, terminei me tornando, acho que como uma espécie de “subproduto” da leitura sistemática, num editor e num escritor. E, mais do que isso, em algo que poderia chamar meio pretensiosamente de “arquiteto” de livros, não só meus, mas de outros também. Hoje, sou editor de algumas publicações (da coluna semanal da Rede Gestão no JC, do Blog Gestão Hoje, da publicação Atualidades do Instituto da Gestão) e da Editora INTG, que publica livros sobre gestão de organizações e cidades. Também sou presidente licenciado do conselho editorial da Algomais, revista de cuja concepção e criação participei desde o início.

Tenho um monte de livros planejados e que pretendo publicar, continuando a série sobre gestão empresarial, mas também sobre temas urbanos. O que acho que está mais próximo de sair sobre cidades é Recife Passo a Passo, um guia de todos os roteiros caminháveis do Recife, incluindo Olinda. Outro é sobre mobilidade, em sequência ao de calçadas. Um sobre a caminhada com o título provisório de Caminhar é Preciso. E outros mais que ainda estão embrionários na minha cabeça.

Você também costuma escrever outras coisas, no âmbito pessoal? Reflexões, poemas, contos, crônicas, algo do tipo? Pensa em publicar?

Escrevo também artigos. Já escrevi um monte, mas agora estou praticamente restrito aos artigos mensais da Última Página da Algomais. Escrevo desde o número zero da revista. São quase cem artigos. Pretendo publicar uma coletânea, talvez dos artigos sobre o Recife que são muitos. Vamos ver. Publicar dá trabalho…

Quer ler as outras entrevistas do Livro Leve Solto? É só clicar nos nomes abaixo:

Silvério Pessoa

Adriana Calcanhotto

 

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