O brasileiro que foi amigo do autor do O Pequeno Príncipe


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Por Tércio Amaral*

Depois de ler uma publicação sobre O Pequeno Príncipe aqui no Livro Leve Solto, resolvi compartilhar uma história pouco conhecida do autor do livro com o Brasil, ou melhor, com a monarquia brasileira. Um dos netos da princesa Isabel, o príncipe d. João Maria de Orléans e Bragança (1916-2005) foi, talvez, um dos únicos brasileiros a compartilhar seus estudos básicos com um dos escritores franceses mais celebrados no mundo. Em pleno exílio da Família Imperial Brasileira, na França, os dois foram colegas de turma na escola de desenho de madame Papin, na década de 1920. O fato é contado na biografia do príncipe d. João Maria, História de um príncipe (Editora Record, 1997) assinada por J. A. Gueiros, infelizmente esgotada.

O autor brinca que, quando os dois se conheceram, Antoine de Saint-Exupéry nem sonhava ainda com seu Pequeno Príncipe, embora tivesse ao seu lado uma alteza de carne e osso. Na verdade, possivelmente o príncipe brasileiro não tenha sido o único membro da realeza que o autor conheceu. Antoine Saint-Exupéry foi o terceiro filho do conde francês Jean Saint-Exupéry e este laço tão estreiro com a nobreza o fez um verdadeiro tradutor dos sentimentos dos que possuem sangue azul. Os dois amigos, que mantiveram a amizade fraterna, seguiram o mesmo destino. Na fase adulta, continuaram a pintar, escrever e levar a vida com certa poesia, mas serviram seus respectivos países nas Forças Armadas.

Os dois foram aviadores e lutaram na 2º Guerra Mundial. Neste período, d. João encontrou o amigo em plena missão, em Nova York, nos Estados Unidos. O príncipe brasileiro foi buscar os aviões Vultess, destinados a instrução de novos pilotos, quando um amigo em comum veio apresentar Jean Saint-Exupéry, sem saber da ligação dos dois. Em Nova York, os dois se encontraram no bar Plaza, em companhia do pintor Bernard La Motte, autor de famosos painéis que eram moda nos Estados Unidos. O que se sabe nas história do príncipe brasileiro é Saint-Exupéry gostou de saber que o amigo seguiu a carreira militar. O autor estava lançando, em 1942, data do encontro, o livro Flight to Arras, que depois sairia em Paris com o título Pilote de Guerre. Neste mesmo encontro, Bernard la Motte desenhou na margem de um exemplar um boneco que seria, mais tarde, indentificado como o Pequeno Príncipe. A alteza brasileira possivelmente foi um dos primeiros leitores a ter contato com o futuro sucesso editorial.

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“O jeitão rústico, a aparência nada elegante de Saint-Exupéry, lembrava a de um butor, aquela ave aquática desengonçada que nem se sabe como consegue voar. Mas, contrastando com sua imagem física rude, era um poeta fascinante, um verdadeiro sedutor de pessoas. Quando abria a boca para falar conquistava magicamente a audiência. Cada palavra encerrava uma ideia luminosa para se guardar na memória pelo resto da vida”, diz J. A. Gueiros com base em relatos coletados em entrevista com o príncipe brasileiro. D. João também afirma que notou que o amigo estava cansado da Guerra. Ele também se queixou dos americanos que tinham bombardeado as usinas Renault, na França, com a justificativa de que elas estariam sendo utilizadas pelos nazistas.

O príncipe e o autor chegaram a marcar um novo encontro, mas não há registro de uma nova conversa. Dois anos depois, em julho de 1944, Antoine Saint-Exupéry morreria vítima do confronto mundial. O fato só foi confirmado décadas depois, quando um piloto alemão declarou numa entrevista à Paris Match que havia derrubado um avião francês do tipo Lightning, sobre o mediterrâneo, no dia 31 de julho de 1944. “Com uma naturalidade espantosa esse homem admitiu ter encerrado a vida do grande aviador e poeta, como quem corta uma flor no jardim”, lamentou o brasileiro.

D. João, após o fim do exílio da Família Imperial, retornou ao Brasil, onde residiu nas cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro e Paraty. Foi casado com a princesa egípcia Fátima Chirin (1923-1990), com quem teve seu único filho: o príncipe d. João Henrique de Orléans e Bragança (1954). D. João Maria era irmão do anterior chefe da Família Imperial do Brasil (o imperador do Brasil, segundo os monarquistas), d. Pedro Gastão de Orléans e Bragança (1913-2007), casado com a princesa espanhola Esperanza de Bourbon (1914-2005), tia do rei Juan Carlos I (1938), da Espanha.

* Tércio Amaral é um historiador e jornalista pernambucano.

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