Os (maus) olhos sobre Cuba


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Foi leitura da época do curso de jornalismo, recomendada, salvo engano, pela professora de Telejornalismo 2. A capa do livro – uma varanda, um homem caminhando na rua e uma representação da bandeira de Cuba, em tons de branco, cinza e preto – e o próprio título, Viagem ao crepúsculo, já indicavam que as páginas a seguir seriam pouco gentis com o governo do então líder Fidel Castro.

A previsão se confirmou. No livro em que relata tudo o que observou durante a viagem de um mês a Cuba (entre 2007 e 2008), o jornalista pernambucano Samarone Lima adota um tom bastante crítico à condução política, econômica e social da ilha. Em alguns momentos, inclusive, pareceu-me ter carregado demais nas tintas, diante do que eu próprio vi no país (quando fui, em 2004) e das leituras que já fiz sobre ele (como A ilha, de Fernando Moraes).

Motivos dessa discordância? Difícil precisar, mas coloco algumas hipóteses. A primeira: do lançamento do livro de Moraes até o de Samarone, passaram-se mais de 30 anos, tempo suficiente para que muita coisa tenha mudado em Cuba. A segunda: minhas conclusões basearam-se apenas nas minhas experiências como (jovem) turista, ainda que fortemente interessado pela cultura e pela realidade do outro país. Provavelmente, se tivesse ido no papel de jornalista (ou, pelo menos, com essa formação, só obtida sete anos depois), teria outros olhos – e ouvidos – para bastante coisa.

A terceira hipótese tem tudo a ver com a segunda, mas transfere a responsabilidade para o autor do livro. Ele próprio, nas páginas iniciais, explica que não anotou depoimentos, não agendou entrevistas nem foi “em busca das famosas ‘fontes’ do jornalismo”. Em resumo: colocou-se disposto a ouvir e conversar com os nativos, mas não nos moldes “ideais” (ou assim convencionados) da reportagem, incluindo a busca pelo contraditório. Sem problemas quanto a isso, já que o escritor não pretende que sua obra seja considerada “a verdade”, retrato fiel de uma realidade – o que, aliás, também não seria alcançado nem pelo mais neutro e preparado dos comunicadores.

Para não me estender mais nessa discussão, voltemos ao livro. Nele, Samarone conta o que viveu, comeu, escutou, falou, viu e sentiu durante um mês em Cuba. O jornalista chegou a morar em uma casa de Havana, convivendo dia e noite com seus habitantes. Deles e de outros cubanos, cujas identidades foram preservadas, o autor traz histórias e opiniões que, segundo ele, seriam suficientes para levar seus responsáveis à prisão. Entre os problemas retratados – e pouco analisados no campo de causas e efeitos -, estão a escassez de alimentos, a concentração dos meios de comunicação nas mãos estatais e a violência.

Trata-se, no final das contas, de uma visão que oscila entre o realismo e o pessimismo, dependendo, sobretudo, da ideologia de quem lê Viagem ao crepúsculo. De qualquer forma, o relato contribui bastante para expor as dificuldades vividas na ilha e alimentar o debate sobre suas origens (ditadura, embargo norte-americano, má administração, limitações locais…?) e perspectivas. Nisso, é de grande valia (juro que não é uma referência a “mais valia” de Marx) a narrativa construída de maneira clara e agradável – requisito jornalístico do qual Samarone, felizmente, não abriu mão.

Ficha técnica

Título: Viagem ao crepúsculo

Autor: Samarone Lima

Editora: Casa das Musas

Páginas: 231

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Um comentário sobre “Os (maus) olhos sobre Cuba

  1. Fico indignada com qualquer comentário negativo sobre Cuba. Não por ideologia política, mas porque acho que as dificuldades pelas quais passa o governo e o povo de lá, tem uma única origem: o embargo imposto pelos EUA. Uma ilha que se rebelou (assim como o Haiti) contra um sistema vil de exploração (“cassino” dos norte americanos, apoiados pelo governo de Fulgêncio Batista), com poucos recursos para impulsionar sua economia, não poderia ir muito longe não.
    Mais apesar de tudo, segundo a Wikipédia: “Cuba tem uma taxa de alfabetização de 99,8%, uma taxa de mortalidade infantil inferior até mesmo à de alguns países desenvolvidos, e uma expectativa de vida média de 77,64. Em 2006, Cuba foi a única nação no mundo que recebeu a definição da *WWF de desenvolvimento sustentável; ter uma pegada ecológica de menos de 1,8 hectares per capita e um Índice de Desenvolvimento Humano de mais de 0,8 em 2007.” E apesar de criticarem os médicos cubanos, Cuba tem o segundo melhor sistema de saúde de toda a América; só perde para o Canadá.
    Então, apesar de não conhecer o autor do livro, aconselho-o, antes de “jogar pedras no telhado alheio”, fazer um “rolezinho” por nosso amado Brasil e escrever quais as causas e consequências de um país de riquezas imensuráveis ter alta taxa de analfabetismo, miséria, doenças…

    *World Wide Fund for Nature (Fundo Mundial para a Natureza)

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