Science e Josué: unidos pela lama


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Hoje, 2 de fevereiro, é uma data marcante para os pernambucanos. Faz 17 anos que o maior nome do movimento Manguebeat e uma das referências musicais do estado morreu, vítima de um acidente de trânsito no Complexo de Salgadinho, em Olinda. Para homenagear Chico Science, o LLS aborda a influência da literatura na sua obra, um diálogo que superou um hiato de décadas para lançar uma nova luz sobre problemas, aparentemente, atemporais.

A maioria das músicas lançadas por Chico e pela Nação Zumbi, ao longo da década de 1990, é repleta de alusões ao homem-caranguejo, aos mangues, à lama, ao Rio Capibaribe, às desigualdades sociais, à fome e a tópicos afins. Há, nisso, uma coincidência flagrante com a obra do médico, geógrafo, cientista social, professor, nutrólogo e escritor pernambucano Josué de Castro, nascido em 1908, falecido em 1973 (quando Chico tinha apenas 7 anos) e conhecido, sobretudo, pela obra Geografia da fome.

Essa coincidência não é por acaso. Na época da formatação do movimento Manguebeat, Chico Science foi um leitor contumaz de Homens e Caranguejos, único romance de Josué de Castro, lançado em 1966. O livro conta a história de um menino pobre que, enquanto cresce, entra em contato com a miséria que ronda os trabalhadores dos manguezais, vegetação típica do litoral e da zona da mata de Pernambuco.

Episódios e observações contidas na obra foram levadas para o campo da música por Science. Exemplos disso são as conhecidas canções Rios, pontes e overdrives, Manguetown e Da lama ao caos. Esta última, que dá nome ao primeiro álbum lançado por Chico e a Nação Zumbi, em 1994, inclusive, traz uma referência direta ao cientista e escritor pernambucano. Confira:

“O sol queimou, queimou a lama do rio

Eu vi um chié andando devagar

E um aratu pra lá e pra cá

E um caranguejo andando pro sul

Saiu do mangue, virou gabiru

Ô, Josué, nunca vi tamanha desgraça

Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”

Numa análise mais profunda das composições de Chico, há outros exemplos da influência literária de Josué de Castro. Para quem se interessar, indico a leitura deste artigo do professor e mestre em literatura Moisés Neto, autor do livro Chico Science – A rapsódia afrociberdélica. É apenas uma das produções científicas interessantes sobre o assunto disponíveis na internet.

Para encerrar a homenagem, música! A seguir, três clipes de Chico e Nação Zumbi, com canções alusivas à vida no mangue, à miséria e às desigualdades que acompanham o Recife, o Nordeste, o Brasil e o mundo, desde muito antes de Josué de Castro.

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