Livro Leve Solto entrevista: CLAUDIO BEZERRA


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“Os textos fazem a cabeça da gente (…) A arte faz a gente melhor, qualifica nossa maneira de ver e agir no mundo.”  – Cláudio Bezerra (foto: Renata Victor)

Clássico é clássico e vice-versa. A frase antológica do ex-atacante Jardel define bem o gosto literário do documentarista, professor e jornalista Cláudio Bezerra. Aos 49 anos, esse recifense, que já tem cerca de 30 produções audiovisuais no currículo, é fã de obras e autores de quilate, como Freud, Sartre, Nietzche, Walter Benjamin, Shakespeare e Brecht. Nomes que contribuíram – e muito – para sua formação pessoal e profissional.

Professor da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) desde 2001, Cláudio Bezerra também tem se dedicado a projetos paralelos de pesquisa e produção de documentários. Em 2002, por exemplo, realizou Tejucupapo, filme que conquistou o Concurso Ary Severo e Firmo Neto na categoria “melhor roteiro” e o Festival do Audiovisual do Mercosul, como “melhor curta”. Em 2012, lançou Alexina – memórias de um exílio, vencedor do VII Concurso de Roteiro para Documentários Rucker Vieira, promovido pela Fundação Joaquim Nabuco e pela TV Brasil.

Cláudio também tem experiência no campo literário. Em 2004, dois anos depois do lançamento do filme, ele publicou, pela Bagaço, o livro Tejucupapo – história, teatro, cinema. Em 2011, foi a vez de Transgressão em 3 Atos: nos abismos do Vivencial, editado pela Fundação de Cultura Cidade do Recife e escrito em parceria com os também professores Alexandre Figueirôa e Stella Maris Saldanha.

Saiba mais sobre as influências literárias e as experiências profissionais de Cláudio Bezerra, além da sua opinião sobre as ligações entre cinema, teatro e literatura, na entrevista a seguir.

Sua carreira, dentro e fora da sala de aula, tem sido dedicada sobretudo ao audiovisual. Obviamente, assistir a filmes é fundamental nessa trajetória. Mas e quanto aos livros? Quais leituras foram importantes para a sua formação?

Desde menino leio bastante e com interesses variados em literatura, filosofia, cinema, teatro e psicanálise. É difícil dizer quais são os livros mais importantes porque tudo o que a gente lê de algum modo acaba influenciando a gente. Alguns, é claro, marcam mais. A Idade da Razão, de Sartre, Genealogia da Moral, de Nietzsche, O Mal-Estar na Civilização, de Freud, e os ensaios sobre literatura e história da cultura, de Walter Benjamin estão, digamos, na base da minha formação. Mas, muitos outros autores também foram e são importantes, como Marx, Foucault, Deleuze, Barthes, Paulo Freire etc. Como disse, meus interesses são variados, e contraditórios.

Existe uma boa produção literária sobre o cinema (e, especificamente, o campo dos documentários)? Se sim, essa produção é brasileira ou depende do que se publica no exterior?

De modo geral, a reflexão e a publicação de livros sobre cinema tem crescido muito no mundo inteiro, desde os anos 80, em grande medida influenciadas pelo advento das novas tecnologias de registro e processamento de imagens, e do surgimento de novas possibilidades expressivas. No campo do documentário, a produção literária cresceu muito a partir da década de 90. A maior parte dessa produção vem do exterior e pouca coisa foi traduzida. Mas é preciso reconhecer que temos avançado muito nesse quesito. Por exemplo: a coleção Campo Imagético, da editora Papirus, coordenada por Fernão Ramos, e a coleção Cinema, teatro e modernidade, da Cosac & Naify, coordenada por Ismail Xavier, estão traduzindo e lançando livros excelentes para a compreensão do cinema contemporâneo, seja documentário ou ficção, como O Olho Interminável (Jacques Aumont), Cinema, Vídeo, Godard (Philippe Dubois), Figuras Traçadas na Luz (David Bordwell), O Documentário: um outro cinema (Guy Gauthier), Introdução ao Documentário (Bill Nichols), entre outros. É importante ressaltar que a produção nacional também tem crescido: O Olhar e a Cena, de Ismail, e Mas Afinal… O Que é Mesmo Documentário, de Fernão, são reflexões de fôlego.

Nos últimos anos, filmes baseados em livros têm feito muito sucesso. É o caso de O Senhor dos Anéis, Harry Potter, Crepúsculo e, provavelmente, também será o de A menina que roubava livros e A culpa é das estrelas, entre outros. Como você analisa isso? Historicamente, é um recurso que dá certo? Ou algo mudou na literatura e/ou no cinema?

A relação entre cinema e literatura é de longa data. Em seus primórdios, quando buscava ser reconhecido como mais uma expressão artística, a sétima arte, o cinema viu na literatura, mais especificamente nos clássicos da literatura, um caminho de legitimidade. Tanto que muitos roteiristas de Hollywood, no início do cinema falado, eram escritores. Hoje, como no passado, o interesse de Hollywood é de fisgar a popularidade de romances. Mas não é só uma questão financeira. Muitos diretores gostam de fazer adaptações. Orson Welles é um belo exemplo. A adaptação que fez de O Processo, de Kafka, é brilhante. Particularmente, considero que as influências entre cinema e literatura, e cinema e teatro são mútuas e profícuas também em termos de linguagens. A história do cinema é cheia de belos exemplos, inclusive no Brasil.

Você acredita que esse boom de adaptações cinematográficas pode contribuir para a difusão da leitura? Ou a sociedade estaria apenas substituindo o livro pelo cinema?

A gente tem um exemplo concreto, aqui no Brasil, de que o cinema pode sim contribuir para a difusão da leitura. Certa vez o escritor Ariano Suassuna declarou a imprensa que a adaptação da peça Auto da Compadecida, feita por Guel Arraes, para a televisão e o cinema, fez sua peça ficar mais conhecida e aumentou a venda do livro.

Você tem alguma (ou algumas) indicação de livro que foi bem adaptado para o cinema?

Sim. O cinema brasileiro, por exemplo, tem belas adaptações, como Memórias do Cárcere e Vidas Secas, de Graciliano Ramos, adaptados para o cinema por Nelson Pereira dos Santos, ou a peça Toda Nudez Será Castigada, de Nelson Rodrigues, adaptada por Arnaldo Jabor. No cinema mundial, os exemplos são incontáveis: Jules e Jim, de Truffaut, O Poderoso Chefão, de Coppola, ou Laranja Mecânica, de Kubrick, são apenas alguns.

E há algum livro que você tenha lido e pensado “esse daria um bom filme” (e que nunca foi adaptado para o cinema)?

Não costumo pensar em adaptação quando leio um romance, peça ou poema, talvez por ser documentarista. Mas, se tivesse de enveredar pela ficção, creio que tentaria adaptar um romance de dois escritores pernambucanos: Hermilo Borba Filho e Raimundo Carrero.

Você realizou um documentário e escreveu um livro sobre as mulheres de Tejucupapo. Qual dos dois veio primeiro? Em linhas gerais, o que muda entre contar a história no papel e contar a mesma história no cinema?

Primeiro veio o filme. Na realidade, eu participei de uma experiência coletiva e, talvez, única, de um grupo de amigos que dedicou seis anos de suas vidas a um projeto de realização fílmica cheio de particularidades. Nosso objetivo era maior do que simplesmente realizar um documentário de curta metragem, em 35mm, sobre um grupo de mulheres pobres, do litoral norte de Pernambuco, que há mais de 10 anos realizava uma encenação primitiva do episódio histórico de expulsão dos soldados holandeses do povoado de Tejucupapo, no remoto século XVII. Essa história nos foi revelada pelo jornalista Marcílio Brandão, diretor do filme, que havia realizado uma reportagem sobre o assunto, quando era repórter da TV Globo. Ao perceber que aquela encenação tão simples, de um episódio histórico distante, contribuía para aumentar a autoestima dos moradores da comunidade, a gente ficou encantado e decidiu ajudar no que fosse possível para melhorar não só a encenação da peça, mas, principalmente, a vida daquelas mulheres. E tivemos a felicidade de conseguir. Qualificamos e contratamos as mulheres como costureiras, fizemos oficinas e pagamos a confecção dos adereços com moradores da comunidade, pagamos os ensaios e os dias de filmagem a mais de cem pessoas. Depois, lançamos o filme na comunidade, em praça pública, com o que havia de mais moderno em termos de projeção cinematográfica, com som dolby 5.1. Foi a primeira sessão de cinema pra muita gente de Tejucupapo. O livro foi uma consequência. Na realidade, foi mais uma meio para dar visibilidade às heroínas de Tejucupapo, explicando o episódio histórico, o surgimento e o processo de realização da peça de teatro e a encantadora experiência de realização do filme.

Além da atuação como documentarista, você tem um histórico de pesquisas e trabalhos sobre o teatro. Nesse campo, quais são suas principais referências literárias?

No teatro, assim como na literatura, eu gosto de ler os clássicos: Sófocles, Shakespeare, Tchékhov, Brecht, Gógol.

Na sua opinião, a linguagem literária pode ser facilmente transportada para o cinema e o teatro? Ou é preciso haver uma modificação, uma adequação, para que o resultado seja satisfatório?

É um equívoco pensar a adaptação como transposição literal. Além das particularidades relativas às linguagens de cada campo artístico é fundamental entender que há o trabalho artístico, propriamente criativo do diretor/adaptador, como ele sentiu o texto. Não creio que seja fácil fazer adaptação. Entre outras coisas, é preciso fazer cortes, definir o que funciona bem, criar ambiências e, eventualmente, fazer modificações no texto, ou seja, é um trabalho de criação.

O que você tem lido ultimamente (qualquer gênero, e não só ligado a sua profissão)?

Faz algum tempo que minhas leituras estão muito focadas em textos sobre interpretação e construção de personagens, no teatro e no cinema. Por exemplo, acabei de ler O ator de cinema, de Jacqueline Nacache. Mas, no momento, estou lendo a nova tradução de Totem e Tabu, de Freud.

Quais são seus gêneros e/ou autores favoritos? Tem um livro de cabeceira?

Por ser professor e pesquisador, leio muitos textos acadêmicos. Quando sobra um tempinho, gosto de ler romance, drama, comédia ou tragédia. Mas eu não tenho “o” livro de cabeceira. Talvez eu tenha vários, pois costumo reler os livros que gosto ou li há muito tempo.

Quantos livros lê em média por semana?

Depende da disponibilidade de tempo. Às vezes leio dois, às vezes leio um livro por semana.

Você já respondeu sobre as leituras importantes para a sua formação profissional. Em relação ao seu crescimento pessoal, algum livro ou autor merece destaque?

Vou repetir o que já disse lá no começo da entrevista: tudo o que a gente lê de algum modo acaba influenciando a gente. É por isso que é tão importante ler. Os textos fazem a cabeça da gente. De maneira consciente ou não a gente absorve as histórias e ensinamentos dos livros que lê, como também dos filmes e das peças de teatro que assiste. A arte faz a gente melhor, qualifica nossa maneira de ver e agir no mundo.

Pensa em publicar um terceiro livro? Se sim, sobre o quê?

Sim. Estou finalizando um livro sobre a personagem no documentário de Eduardo Coutinho [documentarista brasileiro, falecido no início do mês e autor de Cabra marcado pra morrer, Edifício Master, entre outros filmes].

Confira as outras entrevistas do Livro Leve Solto:

Silvério Pessoa

Adriana Calcanhotto

Francisco Cunha

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