Auschwitz ou Barbacena?


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Texto publicado originalmente em livrolevesolto.tumblr.com.

Difícil entender que as histórias mais macabras e desumanas estejam nas obras de não-ficção. Bom (?) exemplo disso é o recém lançado Holocausto brasileiro, um livro-reportagem da jornalista mineira Daniela Arbex, sobre o Hospital Colônia de Barbacena. No local, para onde eram enviados doentes mentais e pessoas socialmente “indesejadas” (incluindo homossexuais e esposas incômodas), morreram cerca de 60 mil pessoas. O nome do livro, infelizmente, retrata bem o seu conteúdo.

Em 255 páginas, divididas em capítulos temáticos, Daniela Arbex reconstrói a história do maior hospício brasileiro. Para tanto, ela recorre a registros oficiais e midiáticos, mas, também, a depoimentos de pessoas que trabalharam ou foram internadas no Colônia ou que, pelo menos, o conheceram de perto.

Há relatos bastante emocionantes, que revelam a capacidade de amor e luta dos ditos “doentes mentais”, os preconceitos sociais, o horror diante da morte e da crueldade, a esperança de nascer de novo. Somam-se a eles as descrições detalhadas do Colônia, frutos de entrevistas e reportagens anteriores sobre o local, e fotografias dos personagens e áreas mencionadas no texto.

Em geral, a escrita de Daniela é atraente, capaz de deixar a leitura convidativa (“só mais algumas páginas…”). A jornalista não se resume a uma pretensa objetividade, atendo-se à descrição, mas também não costuma exagerar na dose de lirismo ou considerações pessoais – embora seja possível perceber sua visão de mundo, inclusive, sobre a luta antimanicomial. Crítica mais severa, faria apenas às muitas páginas dedicadas à vida do fotógrafo Luiz Alfredo, que acabam por fugir do tema proposto. Acredito que tenha sido uma forma de agradecer ao profissional, por ter cedido a maioria das imagens que ilustram o livro.

Holocausto brasileiro é um documento importante para a compreensão de uma das muitas partes “ocultas” da história e da sociedade brasileiras. Não obstante, serve como uma boa leitura, pela habilidade de escrita da autora e pelas entrevistas, que conferem graça e emoção à obra. Não recomendaria, entretanto, a leitores mais “frágeis”, tanto pelas imagens, quanto pelas descrições e relatos fortes – e, de minha parte, até então, inimagináveis.

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Um comentário sobre “Auschwitz ou Barbacena?

  1. Me senti prisioneira do manicômio enquanto paginava o livro, realmente chocante, chorei de arder os olhos….tenho um filho com autismo e posso imaginar o que paciente e familiar tenham passado durante esse triste e vergonhoso episódio de tortura brasileira…

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