Autoral: Cadeado


Uma vez, já faz algum tempo, o homem cruzou a porta da minha casa. E foi ali, com a porta escancarada, sem chave nem tramela, que me fechei para o mundo. Dali em diante, a vida foi cadeado. Não o da Pont des Arts, não o do desenho animado, não o dourado que brilha na prateleira do armazém. Um cadeado feio, enferrujado… Pequeno e não obstante de um peso que jamais pude suportar sem dobrar os joelhos. Sim, dobrei muito os meus joelhos. Tanto que, em algum momento, que não sei bem qual, desaprendi a levantar. E, de não me reerguer, esqueci os meus passos. Olhava para os pés inertes e não sabia mais o que, com eles, poderia fazer. Mas não havia por que, nem para quem, perguntar. Tudo o que eu precisava escutar, eu já escutava. E de uma forma tão constante e uniforme, um coro de anjos e demônios, que acabei por aceitar que eu mesmo o dizia. “Mantenha os pés nos chão”. O cadeado perdia a cor e ganhava peso. E parecia sempre haver alguém para rodar a chave mais uma vez. Sempre no mesmo sentido: o de apertar. Aperto tal que, de tão acostumado, importei aos joelhos, aos pés, ao coração. Já era tudo o que me cabia, mas, a minha maneira, gostava dele. Uma espécie de Síndrome de Estocolmo. Gostava porque tinha. E ter é importante… especialmente, quando não se é. Uma vez, já faz algum tempo, o homem cruzou a porta da minha casa. E foi ali que perdi minha morada, meu endereço. Desabriguei-me em mim e chovi. Até afundar.

 

Autor: Tiago Cisneiros

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3 comentários sobre “Autoral: Cadeado

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