Autoral: Fome do tempo


No início, nada havia. Calmamente, ele comia e ainda podia descansar. Então, vieram as aulas, as tarefas de casa, os cursos à tarde, os esportes, os exames. E o descanso ficou para trás. Depois, vieram as oportunidades, a vontade de crescer, de receber, de entregar, de mostrar-se ao mundo, de tê-lo para si. E ele passou a comer rápido, quase sem mastigar. Aí, vieram as despedidas, a pressão, o medo, a mulher, o filho, a concorrência, a realidade. E ele começou a engolir, sem sentir o sabor. Chegaram as doenças, os vícios, as contas, as brigas, o cansaço, a amargura, a distância. Foi quando percebeu que já deixara de engolir. Tornara-se a refeição. Repulsiva, insossa e azeda, anticlímax da degustação. Foi assim que, depois de cortá-lo em mil pedacinhos, o tempo o engoliu. De uma vez… por todas.

Tiago Cisneiros, novembro de 2014

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