Autor da primeira “social novel” do Brasil, Álvaro Filho explica iniciativa e lança livro neste sábado (15)


O próprio autor apareceu "por acaso" em algumas das postagens da história no Facebook

O próprio autor apareceu “por acaso” em postagens da história no Facebook. Crédito: Divulgação

Curtir e Obter notificações. Com apenas dois cliques, qualquer usuário poderia acompanhar o nascimento da primeira social novel do Brasil. De autoria do jornalista e escritor pernambucano Álvaro Filho, o Diário de Viagem do Sr. A é uma trama policial produzida durante uma viagem de 20 dias à Europa, no último mês de agosto, e publicada via smartphone, em posts no Facebook. Neste sábado (15), às 16h, a história ganhará a sua versão em papel, com direito a bate-papo e lançamento na Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto).

Editada pela Autografia, a obra impressa não fazia parte dos planos originais do autor. Os encantos do papel, no entanto, acabaram pesando e levando ao lançamento deste sábado, em Olinda. No livro, além da compilação dos “posts-capítulos”, Álvaro Filho decidiu detalhar o inovador processo de criação e escrita do Diário de Viagem do Sr. A.

Mesmo antes do lançamento oficial, o livro já pode ser adquirido pela internet, no site da Autografia. Para quem quiser dar uma olhada – e uma curtida – na versão original, online, basta clicar aqui. Vale conferir, por exemplo, os elementos tipicamente virtuais utilizados na publicação da história, incluindo hashtags e check-ins.

Livro impresso terá, além da história, os detalhes sobre a criação e publicação virtual

Livro impresso terá, além da história, os detalhes sobre a criação e publicação virtual

Confira a seguir a entrevista concedida por Álvaro Filho ao Livro Leve Solto:

O que veio primeiro: a ideia do livro ou a organização da viagem para a Europa?
A viagem veio primeiro, bem antes, mesmo. O roteiro foi planejado e traçado em maio e a decisão de escrever o livro surgiu repentinamente em julho, após o final da Copa, 15 dias antes do embarque.
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Você já tinha todo o enredo na cabeça antes de embarcar? Ou a história foi sendo criada ao longo da viagem, na medida em que conhecia/visitava os lugares retratados no livro?
Tinha o que se costuma chamar de um plot, um pequeno argumento de como tudo começaria. Mas, como a história obedecia a meu roteiro de viagem – e nunca o contrário -, sabia que ia ter que improvisar. A vantagem é que eu já conhecia todos os lugares por onde iria passar, alguns já havia morado ou passado longas temporadas, e eu sabia mais ou menos o que encontraria em cada ponto visitado, o que me dava uma certa margem para já ir encaixando a história.
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Em algumas postagens, há fotos de pessoas que, na sua história, se tornam “intérpretes” ou “ilustrações” de personagens fictícios. Você chegou a conversar com alguma delas, explicar o que estava fazendo? Se sim, qual foi a repercussão?
Não, nenhuma delas tinha a mínima ideia que fazia parte do roteiro de um livro. Tudo funciona meio como uma viagem de turismo normal, onde você não explica aos outros que aparecem em suas fotos o que você está fazendo.
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Em quê você se inspirou para inovar no processo de produção do livro? Por que escolheu escrever e publicar em formato de posts, através de um smartphone?
Eu sou um autor disperso e sempre me imponho algum deadline [termo que indica prazo final, muito utilizado no jornalismo], seja porque o livro tem a ver com uma data ou evento, ou porque há um prazo determinado pela editora. Queria escrever uma história que se passasse em pontos glamurosos onde outros autores contaram histórias e achei que poderia aproveitar a viagem. Primeiro, pensei em ir tomando notas e, mais adiante, publicar um livro. Depois, me conhecendo como me conheço, sabia que ele nunca sairia. Daí, veio a ideia de escrever o livro em tempo real. Pensei num blog, mas também sabia que havia o trabalho de abrir o aplicativo, escrever, etc, e sempre é mais difícil levar um leitor a um blog. Finalmente, achei que o Facebook seria ideial, afinal, todos que viajam dividem seu passeio na rede social, a diferença é que estava postando uma ficção e as fotos da viagem de uma outra pessoa, um personagem. Mas o curioso é que é possível acompanhar a minha viagem pelas postagens da página.
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Você acredita que esse formato de “literatura móvel” pode se tornar uma tendência nos próximos anos, como tem acontecido em outros segmentos profissionais?
Esse negócio de tentar desenhar o futuro já derrubou muita gente boa. Acho que pode ser uma tendência de autores que não conseguem abrir espaço nas editoras tradicionais de escreverem suas histórias e dar um fim no que se convencionou chamar entre os escritores de “angústia da publicação”. O fato de não ter certeza que sua história será publicada acaba desmotivando uma série de futuros escritores e, nesse caso, as redes sociais podem ser um bom início.
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A partir dessa sua primeira experiência, o que você aponta como principais vantagens e como maiores limitações da escrita e da publicação de histórias via smartphones?
Eu já uso o iPhone como meu computador há uns dois anos, inclusive para outras atividades profissionais, como cobertura jornalística. Cobria Copa do Mundo no Brasil só com um iPhone e faço dezenas de outros frilas só com ele. Há limitações, claro que há, mas os benefícios são maiores. Já pensou ter que viajar carregando uma câmera e um notebook? É bom lembrar que eu estava de férias. O grande problema do iPhone é o corretor ortográfico, que fica sugerindo nomes bizarros aos personagens que você cria (e, se houver uma próxima vez, vou pensar muito bem antes de batizar meus personagens), a necessidade de conexão e de carregar a bateria, como as pessoas “normais” que usam um enfrentam. O teclado pequeno é algo que já me adaptei, mas confesso que quando passei os posts para o Word me assustei em ter escrito cerca de 50 páginas apenas com os dois polegares.
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Embora recente, sua iniciativa já tem uma considerável repercussão na mídia e até no meio acadêmico, com projetos abordando esse novo meio de produção e publicação literária. Isso era esperado? Você acha que essa “divulgação” pode estimular outras ações do gênero?
Suspeitava que as pessoas poderiam achar curioso, mas não que houvesse um convite para falar na Fliporto, por exemplo, afinal o convite foi feito antes da viagem, ou seja, deve ter sido a primeira vez que um autor é convidado antes de escrever a obra. Também foi curioso que houve resenhas no jornal sobre o “livro” antes que ele fosse escrito, o que talvez justifique o interesse da academia em pesquisar esse imediatismo, não só na publicação, mas nas resenhas literárias, afinal, elas estariam resenhando a produção, não o conteúdo.
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Por que lançar, agora, a versão impressa do Diário de Viagem do Sr. A? Existe algum motivo lógico ou é mais uma questão pessoal, de apego ao “papel”, até pelo fato de seus outros livros [veja aqui] terem sido publicados no modelo tradicional?
Não fazia parte dos planos publicar em livro, tinha uma ideia que seria meio que o lema do Facebook – “não é um livro, nem nunca será” – mas existem coisas que são inevitáveis. Já no meio da viagem, havia o convite para lançar o livro. Acho que vale a pena não pelo conteúdo, mas pelo registro da experiência, afinal o papel parece frágil, mas é um meio muito mais seguro que o digital no que diz respeito à perpetuação dos dados.
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Já tem planos para escrever uma nova “social novel”? Se sim, pode adiantar alguma coisa sobre ela?
Pensei inclusive em escrever uma durante a Fliporto, já tinha o plot e um título provisório, chamado O Personagem Oculto e falaria sobre um escritor convidado para a Fliporto que subitamente desapareceria. A história seria contada pelos escritores, mas dei uma pausa na ideia pois estou para ser pai e a data do parto coincide com a Fliporto, o que poderia acabar mexendo com os planos. Mas como tudo nessa vida digital é dinâmico, nunca se sabe, não é?
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