Ciência, pessimismo, podridão: no centenário de morte de Augusto dos Anjos, conheça o estilo peculiar do poeta


Morto aos 30 anos, Augusto dos Anjos foi poeta de um livro só

Morto aos 30 anos, Augusto dos Anjos foi poeta de um livro só

Um livro lançado e três décadas de vida foram o bastante para tornar Augusto dos Anjos um dos poetas mais conhecidos da história da literatura brasileira. Neste 12 de novembro, quando se completam cem anos desde a sua morte, o Livro Leve Solto tenta explicar o que está por trás da fama do escritor paraibano.

Nascido em 1884, no Engenho Pau d’Arco, Augusto dos Anjos escreveu os primeiros poemas ainda pequeno, aos 7 anos. Mais tarde, no início do século seguinte, concluiu o curso superior na Faculdade de Direito do Recife, onde conheceu o trabalho A poesia científica, do professor Martins Júnior. Apesar da graduação, jamais atuou na área jurídica, tendo preferido o magistério e lecionado na Paraíba, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.

Foi em Minas, especificamente em Leopoldina (onde morreria, em 1914, de pneumonia), que Augusto dos Anjos publicou o seu único livro, intitulado Eu, em 1912. A obra não teve qualquer relevância na época, mas acabou sendo descoberta pelo público e pela crítica posteriormente, devido ao empenho de Órris Soares, amigo e biógrafo do autor.

Em Eu, sob o ponto de vista estético e sonoro, Augusto dos Anjos mostra preocupação com a métrica e explora aliterações. No tocante ao conteúdo, o poeta transita entre temas “difíceis”, como a morte, a putrefação, o pessimismo e a descrença no amor, frequentemente valendo-se de termos científicos – o que, para muitos, é o maior diferencial de sua obra. De tão peculiar, o estilo do autor não tem sido enquadrado com facilidade em correntes ou movimentos literários. Parte da crítica o identifica como parnasiano, enquanto outros falam em simbolista, pré-modernista ou modernista.

Como exemplo da produção de Augusto dos Anjos, apresentamos o poema Versos íntimos:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

.
Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera. 

.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja. 

.
Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Também é possível conferir declamações de alguns poemas do autor paraibano no Youtube. Confira um deles, na voz do ator Othon Bastos:

Exposição

Para quem está em São Paulo, uma dica é visitar a mostra Esdrúxulo: 100 anos da morte de Augusto dos Anjos, aberta nesta quarta-feira (12), na Casa das Rosas (Avenida Paulista, 37). A exposição, que segue até 1º de março de 2015, é composta por 29 poemas, além de documentos, manuscritos e vídeos.

O horário de visitação é das 10h às 22h, de terça a sábado, e das 10h às 18h, nos domingos e feriados. O acesso é gratuito.

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