Cláudio Bezerra fala sobre seu novo livro, em que aborda a personagem nos documentários de Eduardo Coutinho


Morto em fevereiro, aos 80 anos, Eduardo Coutinho inovou no formato de uso de personagens em documentários

Morto em fevereiro, aos 80 anos, Eduardo Coutinho inovou no formato de uso de personagens em documentários

Vai chegando ao fim um ano marcado por mortes de nomes importantes na história da cultura brasileira. Dentre essas grandes perdas, uma das mais trágicas foi a do documentarista Eduardo Coutinho. Em fevereiro, ele foi assassinado a facadas pelo filho, que sofre de esquizofrenia, na casa em que morava, no Rio de Janeiro. Nove meses depois, em novembro, o jornalista, professor e cineasta pernambucano Cláudio Bezerra, 50, resgatou um pouco da vida do realizador de filmes como Edifício Master, Cabra marcado para morrer e Jogo de Cena, com o lançamento de A personagem no documentário de Eduardo Coutinho (Editora Papirus, 144 páginas).

A obra é uma adaptação da tese de doutorado de Bezerra, concluída em 2009. “Além do enxugamento da parte teórica, fiz ajustes e complementos no texto e aprofundei algumas coisas que não deu tempo para incluir no trabalho original”, explicou o autor, que já publicara Tejucupapo – história, teatro, cinema (2004) e Transgressão em 3 Atos: nos abismos do Vivencial (2011, em parceria com Alexandre Figueirôa e Stella Maris Saldanha).

Bezerra concedeu uma entrevista ao Livro Leve Solto sobre o novo título, a atual produção de documentários no Brasil e o próprio trabalho de Eduardo Coutinho, a quem atribui o status de referência, em pé de igualdade com Glauber Rocha.

Quem lhe conhece um pouco sabe da sua admiração pela obra de Eduardo Coutinho, documentarista retratado no seu novo livro. Você se lembra de quando/como entrou em contato com os filmes dele?

Meu contato com o documentário de Coutinho começou por Cabra Marcado para Morrer, filme fundamental para quem estava envolvido na luta pela redemocratização do Brasil, na década de 1980. Mas não fiquei acompanhando a obra dele. Somente a partir do lançamento de Edifício Máster, em 2002, é que passei a me interessar mais de perto por seu trabalho. Aquela coisa de fazer um filme só com moradores de um prédio falando de momentos de sua vida, sem imagem de cobertura ou qualquer outro elemento que não tenha sido registrado nas filmagens me encantou.

Você também já trabalhou ao lado de Coutinho, certo? Como foi a experiência?

Fui assistente de direção em Sobreviventes de Galiléia e A Família de Elizabeth Teixeira. Os dois filmes foram realizados como material Extra para o DVD de Cabra Marcado para Morrer, lançado no primeiro semestre de 2014. Trabalhar com Coutinho foi uma honra e, naturalmente, um grande aprendizado. Coutinho era um documentarista que vivia sob o risco do real, tinha uma ideia geral do que pretendia fazer, mas gostava mesmo era de ser surpreendido nas filmagens. Acompanhar e discutir com ele o andamento do trabalho foi um processo muito rico e emocionante porque Coutinho tinha uma relação especial com o pessoal que participou do Cabra, e um interesse particular em reunir a família de Elizabeth Teixeira.

claudio e coutinho

Registro das gravações em que Cláudio Bezerra (agachado, de azul) trabalhou ao lado de Coutinho (em pé, de verde)

Quais são as principais razões dessa admiração? O que havia de especial em Eduardo Coutinho, que mereça ser contado e debatido, tanto na literatura, quanto nas salas de aula e no cinema?

Coutinho está para o documentário como Glauber Rocha está para a ficção. Os dois são as duas maiores referências cinematográficas brasileiras, suas obras estão entre as mais estudadas e citadas, aqui e no exterior. Com Cabra Marcado para Morrer, Coutinho rompeu com certo modelo sociológico de fazer documentário no Brasil, para apresentar a trajetória dos personagens, inclusive ele próprio, de maneira reflexiva e até autobiográfica. Posteriormente, formatou um modo de fazer cinema que chamo em meu livro de “documentário de personagem”, interessado exclusivamente no desempenho performático, sobretudo, de pessoas comuns, diante das câmeras. Ou seja, um novo cinema político, interessado por histórias pessoais, onde verdade e mentira, ficção e realidade se contaminam. Vejo esse cinema de Coutinho na base de grande parte da produção documentária brasileira contemporânea.

Na entrevista concedida em fevereiro ao Livro Leve Solto, você avaliou que a produção literária nacional sobre o cinema ainda não era forte, mas vinha apresentando uma evolução, com obras como “O olhar e a cena”, de Ismail Xavier, e “Mas afinal… o que é mesmo documentário”, de Fernão Ramos. Esse cenário foi um estímulo para que você também voltasse a publicar – e, especialmente, abordando a obra de um documentarista?

Pelo que lembro, a conversa foi em torno de livros de referência, obras densas do ponto de vista teórico sobre o campo cinematográfico, e não sobre o volume da produção acadêmica brasileira na área, pois essa é grande. Não tive e nem tenho a pretensão de me tornar referência, meu interesse em publicar o livro foi o de expressar meu ponto de vista sobre o documentário de Coutinho e de algum modo prestar uma homenagem a ele.

Em entrevista para o Jornal do Commercio, você explicou que a pesquisa de doutorado que dá base a seu novo livro partiu do interesse pelo emprego de personagens, sobretudo na última fase de produção de Coutinho. O que esse uso das personagens contribui para a narrativa fílmica?

No caso da última fase de Coutinho, a personagem é a própria condição para existência do filme. São documentários que não discutem um tema, pois são ancorados exclusivamente na performance oral dos participantes numa interlocução aberta com o diretor. A narrativa fílmica é construída apenas pela atuação das personagens diante das câmeras, o que adiciona certa carga dramática um tanto ficcional ao documentário.

Acredita que o sucesso de documentários como Jogo de cena e Edifício Master, feitos por Coutinho e marcados pela exploração de personagens, tem influenciado (ou deve influenciar) novas produções com o mesmo estilo de narrativa?

A meu ver, grande parte da produção documentária brasileira contemporânea, de maneira voluntária ou não, traz alguns dos elementos que caracterizam o documentário de Coutinho, como a aposta radical na performance oral, a reflexividade, a diluição de fronteiras entre ficção e realidade, o investimento nas micronarrativas pessoais, além da entrevista.

Quais filmes do próprio Coutinho (e, eventualmente, de outros realizadores) você indica, para quem quiser ver bons exemplos do uso de personagens em documentários?

Todos os documentários da última fase de Coutinho são bons exemplos, mas destacaria O Fim e o Princípio, pra mim, a obra-prima do documentário de personagem, e Edifício Máster. O documentário Crônica de um Verão, de Jean Rouch também é um ótimo exemplo, assim como o autobiográfico As Praias de Agnés, de Agnés Varda.

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s