Caso Dreyfus: literatura e xenofobia na França há 117 anos


jaccuse

Carta aberta em que o escritor Émile Zola critica a perseguição a um oficial judeu do exército francês

 

Os recentes atentados realizados por extremistas na França puseram ainda mais fogo nos debates sobre relações culturais, imigração e xenofobia. O país, que já vinha aparecendo no cenário internacional devido a ações contrárias aos costumes do Islamismo, agora, vivencia uma onda crescente de manifestações contra os seguidores da religião. Há pouco mais de 12 décadas, a história era semelhante… Os alvos é que eram outros: em vez de muçulmanos, os judeus.

Em 13 de janeiro de 1898, o escritor francês Émile Zola provocou um rebuliço no país, ao publicar uma carta aberta ao presidente Félix Faure, intitulada J’accuse! (“Eu acuso!”), no jornal literário L’Aurore. O manifesto foi provocado pela manutenção de uma sentença condenatória contra o ex-oficial do exército Alfred Dreyfus, mesmo após a descoberta de provas da sua inocência.

Dreyfus havia sido condenado à prisão perpétua na Guiana Francesa, em 1894, por supostamente trair a nação, ao trabalhar como espião para a Alemanha. Segundo a narrativa histórica, ele foi apontado como responsável por uma carta anônima, justamente, por ser o único oficial judeu entre os que poderiam tê-la escrito. Em novembro de 1897, o irmão dele descobriu que o culpado, na verdade, era Charles Esterhazy, o que provocou um segundo julgamento do caso. A decisão judicial, entretanto, foi a mesma.

Com a publicação da carta de Zola, intensificou-se o choque de posições no país. Parte da população passou a defender Dreyfus e os judeus, incluindo o escritor Anatole France, que tratou do episódio no livro O Anel de Ametista, e o jornalista Theodor Herzl, que viria a fundar o movimento sionista. Muitas outras pessoas, entretanto, opunham-se aos seguidores do Judaísmo, inclusive organizando passeatas com reivindicações de morte.

O antissemitismo, em parte, vigia sob a influência do livro La France Juive (“A França Judia”), lançado em 1886, por Edouard Drumont. Curioso pensar que, atualmente, outra obra recém publicada está sendo bastante discutida na França. Soumission (“Submissão”), de Michel Houllebecq, tem sido apontado, pelos críticos, como uma criação islamofóbica. No dia em que 12 de seus colaboradores foram assassinados pelos extremistas, a revista Charlie Hebdo havia publicado uma charge de Houllebecq na capa.

É difícil prever o que acontecerá em relação aos últimos ataques e manifestações na França e na Europa. Em relação à história de Dreyfus, o que se pode dizer é que uma revisão do processo confirmou que o responsável pela traição era Charles Esterhazy. Isso aconteceu em 1906 e, logo depois, Dreyfus foi reintegrado ao exército, sem, no entanto, ter direito à contabilização dos cinco anos em que ficou preso injustamente. Em junho de 1907, demitiu-se da corporação e, em 1935, morreu.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s