Autoral: Sempre-árido


Se, dos teus olhos, eu pudesse

Sugar as lágrimas que, pela vida,

Aprendeste a deter,

Ah, se eu pudesse…

O faria sem pensar

Num grito, num salto, num piscar de olhos

De olhos que riscam

Os céus da cidade

E a cidade dos seus.

 .

Sim, o faria.

Na brevidade dos encantos

Antes que tempo houvesse

Para se esconderem as lágrimas

Mais uma – e eterna – vez.

 .

É nesse teu rosto seco,

Nessa aridez da tua pele,

No teu olhar de areia e vidro,

Que ela se reproduz.

Erva daninha sorrateira

Que te entorpece

Te cega, te engasga

Que, por dentro, te desce

E te rasga.

 .

É nessa tua escassez

De lágrimas e de si

Que o sertão se faz

Sem céu, porém.

 .

É nessas tuas rugas

De sol e suor

Que o tempo encontra abrigo

E te desaloja,

Sem que te percebas

Desapropriado

Do próprio que não pode ser alheio

Mas é.

 .

E é assim que perdes ao tempo

Tua casa, teu corpo, tua alma

Tua vida – o que dela resta.

Ficas com as lágrimas

Que, em disfarçada calma,

Por conta e risco, tu gestas.

 .

Se, dos teus olhos, eu pudesse

Sugar o rio que, à morte,

Te conduz em silêncio,

Ah, se eu pudesse…

De pronto, o faria.

 .

Não podendo, porém,

Eu choro

Por ti, sempre-árido,

  E, em teu leito raso, por nós,

Que seguimos com as gargantas secas

Que seguimos cultivando nós

E, com eles, nos engasgamos

Sem soluço, sem pranto

Sem voz.

Tiago Cisneiros

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