Bruna Avellar explora reflexões com escrita peculiar em “Solilóquio do Caos”

Foto: Bruna Avellar/Divulgação

Foto: Bruna Avellar/Divulgação

Nem poema, nem conto, nem crônica, nem romance. Os textos que recheiam Solilóquio do Caos fazem parte de um gênero que nem a própria autora, a estudante de direito pernambucana Bruna Avellar, de 20 anos, sabe definir. A dificuldade de classificar, contudo, está longe de ser um problema para a jovem, que faz seu primeiro lançamento nesta quarta-feira (4), a partir das 20h, no Vaporetto Bar (veja endereço no final do post). Ela lembra que a sua principal referência literária, Clarice Lispector, também não nutria grande preocupação pelos formatos de suas produções. Assim como a escritora ucraniana, aliás, Bruna concentra suas atenções no conteúdo, profundamente ligado a experiências e reflexões pessoais, sobre mudanças e continuidades.

A iniciativa de colocar a primeira obra nas ruas veio após o exemplo próximo do amigo Luiz Henrique Ramos (colunista deste blog e autor de tenho uma página em branco). “Sempre quis publicar, mas achava que não tinha um livro, justamente por não haver uma história, crônicas, poemas… Mas, alguns meses atrás, quando Luiz lançou o dele, alguns amigos me incentivaram e eu vi a quantidade de textos que possuía. Percebi que o livro já existia”, conta Bruna, que, embora escreva desde a infância, só adotou o estilo atual durante a adolescência, após a descoberta de Clarice Lispector. “Aos 16 anos, comecei a me apaixonar por ela. Se você ler, vai notar que ela não se apega a formatos e que os fatos abordados são muito banais. Ela se permitia escrever como queria, sem nem pensar no que iria fazer. É o que eu procuro também”, explica.

Bruna colocou a mão na massa e participou da confecção dos exemplares

Bruna colocou a mão na massa e participou da confecção dos 250 exemplares. Foto:  André Arribas/Divulgação

Assim como Luiz Henrique Ramos, a jovem escritora optou por publicar o seu primeiro livro com a editora cartonera Pé de Letra (leia matéria do blog aqui), cuja produção preza pela sustentabilidade e pelo caráter artesanal. Ela própria esteve envolvida, durante as últimas semanas, na confecção dos 250 exemplares, e confessa que gostou da sensação de dar corpo à obra, a ponto de valorizar até as imperfeições naturais do processo.

De certa maneira, é possível traçar uma analogia entre essa dedicação ao trabalho manual e o conteúdo de Solilóquio do Caos. Se, por um lado, nenhum exemplar fica igual ao outro, por outro, todos mantêm a essência da obra. Para Bruna Avellar, os textos do livro – escritos de 2011 a 2014 e dispostos em ordem cronológica – debruçam-se sobre uma lógica semelhante. “Trabalho muito temas existenciais, como o desapego, o dar adeus. Procuro abordar o que é mudar tanto – ser e, depois, não ser – e, ao mesmo tempo, continuar a mesma pessoa”, afirma, ressaltando que enxerga, na literatura, uma necessidade e um canal para ressignificar a realidade. “Eu dialogo com as diversas partes de mim e, também, com as diversas partes que poderiam ser minhas. A inspiração pode ser qualquer coisa, desde algo que vejo, que escuto… O que eu sinto, eu escrevo.”

Palhinha…

Para entender melhor o estilo peculiar de escrita de Bruna Avellar, leia o texto domingos, que faz parte do livro a ser lançado nesta quarta-feira.

Não esperamos nada: sem verbos, somos a própria espera da partida. Mesmo assim, nunca esperei um adeus da criação em si. Esses pesares que eu coloquei nas tuas costas se tornaram maiores que a tua vontade de ficar?

E como uma mãe que diz ao filho “as coisas morrem, meu querido – não há nada que possamos fazer”, eu assisto, impotente, às tristezas da vida. Solta entre rostos brancos, procurei palavras, mas só achei movimentos (elas andavam sem me transpassar e eu me sentia intocável).

Há dias que são domingos, há domingos que são dias. Dos meus olhos, vejo seus acasos e esqueço as minhas dores: carrega a tua trivialidade, ela me faz seguir… E eu vou, mas não como antes fui.

Houve partidas em que fui menos tardia…

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Serviço

Lançamento do livro Solilóquio do Caos

Data: 04/02/2015 (quarta-feira)

Horário: 20h

Local: Vaporetto Bar – Rua Leopoldino Silva, 100, Parque Santana, Casa Forte – Recife/PE

Preço do exemplar: R$ 20

 

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Luiz Henrique Ramos faz sua estreia literária oficial nesta quarta, com “tenho uma página em branco”

Aos 21 anos, Luiz Henrique Ramos quer se emocionar e emocionar com "Tenho uma página uma branca"

Aos 21 anos, Luiz Henrique Ramos quer se emocionar e emocionar com “tenho uma página em branco”. Foto: André Arribas/Divulgação

O Livro Leve Solto apresenta mais um jovem autor pernambucano de futuro. Luiz Henrique Ramos, estudante de direito de 21 anos, está prestes a fazer sua estreia literária oficial. Nesta quarta-feira (26), às 20h, ele lançará tenho uma página em branco (editora Pé de Letra, R$ 20), livro em que reúne 30 poemas escritos entre 2010 e 2014. A comemoração e as primeiras vendas da obra (com direito a autógrafo e dedicatória) acontecerão no Vaporetto Bar, localizado em Santana, Zona Norte do Recife.

Sonho antigo de Luiz Henrique, o primeiro livro recebeu o título do blog em que ele costuma publicar alguns textos (em ambos, apenas com letras minúsculas). Segundo ele, a frase “tenho uma página em branco” representa o preenchimento da própria vida, o uso das oportunidades. “Brinco fazendo a analogia de que uma página corresponde a um dia, precisamente. E tudo o que fazemos durante o dia termina preenchendo essa página, como se escrevêssemos. O melhor é que não só eu tenho uma página em branco. Todo mundo a tem, todos os dias”, explica o autor, ressaltando que o último poema da obra também foi batizado com aquele nome.

Parente para lá de distante do alagoano Graciliano Ramos, autor do clássico Vidas Secas, Luiz Henrique evita falas pretensiosas sobre a própria arte. No entanto, conta que, com o tempo, afeiçoou-se ao gosto de criar para si, mas, também, para os outros, de atingir leitores e, por meio da literatura, ligar-se a eles. “Descobri que emocionar é tão bom quanto se emocionar. Então, percebi que o que eu escrevo pode até ter sido escrito por mim, mas não é meu. É de quem quiser.”

Já que é assim, que tal conhecer um pouco mais da ideia e da história do poeta? Confira a seguir, na entrevista exclusiva que ele concedeu ao blog.

Quando e por que começou a escrever? O envolvimento com a literatura foi através da poesia?

Não sei precisar exatamente quando, mas lembro que comecei a escrever por necessidade. Tudo o que transbordava de mim, caía no papel em forma de palavras. Prosa e, sobretudo, poesia. Aliás, foi, sim, através da poesia que me interessei pela escrita. Lembro que minha avó materna lia poemas para mim, quando ia dormir em sua casa. E quando eu gostava muito de algum, rezava para, um dia, escrever algo tão bom quanto. Não que eu tenha conseguido, até porque continuo rezando por isso (risos). Lembro, também, de minha avó lendo, com muito orgulho, poesias do seu pai, meu bisavô… Isso me encorajou bastante a escrever. Como também o meu parentesco distante (mesmo!), por parte do avô paterno, com Graciliano Ramos.

Quais são suas principais referências na literatura?

Posso dizer que Paulo Leminski é o meu preferido. A brincadeira que ele faz com as palavras, a forma livre, leve e solta (risos) com que escreve é, sem a menor sombra de dúvida, minha maior inspiração. Clarice Lispector também é outra forte influência. Acho que, com ela, aprendi um pouco como explicar o que não se explica. Augusto dos Anjos, que minha avó muito lia para mim, e Vinícius de Moraes também têm seu percentual na minha formação. É engraçado porque, na verdade, puxo um pouco alguma característica de vários autores, mas criando a minha própria forma.

A ideia de lançar um livro é antiga ou surgiu recentemente, já depois de muitos poemas produzidos?

É um sonho antigo, desde que vi alguns colegas lançando também. Na verdade, eu tinha o projeto pronto, no meu computador, mas não encontrei tanto espaço com as editoras que tentei contato. Quando li aqui no blog sobre o projeto do Pé de Letra, não tive dúvidas de que o sonho seria realidade em questão de tempo.

Você decidiu batizar o seu primeiro livro com o nome do seu blog, onde costuma postar poemas e outros textos. É um título que significa algo especial para você?

“Tenho uma página em branco” é uma forma de dizer que tenho uma oportunidade. Dá nome não só ao blog, mas ao último poema do livro, o que, aliás, termina dando uma clareza ao leitor do porquê desse nome. Brinco fazendo a analogia de que uma página corresponde a um dia, precisamente. E tudo o que fazemos durante o dia termina preenchendo essa página, como se escrevêssemos. O melhor é que não só eu tenho uma página em branco. Todo mundo a tem, todos os dias.

Todos os poemas que fazem parte do livro estão, também, no blog? Ou há textos inéditos?

Os poemas que estão no blog são oito e estão todos no livro, que conta, ao todo, com 30 poesias.

Como você fez a seleção dos poemas? Houve algum critério ou apenas a preferência pessoal?

Na verdade, utilizei todos os poemas que tinha até então. Costumo dizer que nunca terminei um poema. Vivo mexendo, editando os poemas que escrevo, mesmo os mais antigos. “Torço, aprimoro, alteio, limo” que nem Olavo Bilac (risos). Depois de uma conversa com o meu parceiro André Arribas, do Pé de Letra, inclusive perdi o “abuso” que tinha de certos poemas que escrevi. São, de certa forma, uma fase de mim. Se o livro é sobre mim e as minhas páginas em branco, nada mais justo do que escancará-las todas. Sem tirar, só pôr.

Por que o interesse em publicar o livro com uma editora cartonera, a Pé de Letra? O que muda na confecção?

Tudo. Absolutamente tudo. Com o Pé de Letra, posso dizer que participei ativamente de todo o processo de confecção do livro. Desde a escrita dos poemas, propriamente, até o acabamento dos exemplares, passando pela pintura das capas, costura e tantas outras etapas (15 no total!). A ideia de produzir poesia com sustentabilidade e esse contato direto, olho no olho, com André, que toca o Pé de Letra, foi o que me levou a tão acertadamente o escolher como parceiro. É tudo o que eu queria e esperava. Aliás, fui ao lançamento do livro Confissões, de Eduardo Vieira (projeto arretado, também em parceria com o Pé de Letra), e soube que era exatamente o que eu queria para mim também. Não poderia estar mais satisfeito.

O que a poesia e/ou a literatura representa para você, enquanto autor? Em outras palavras: por que (e para quem) você escreve?

Já pensei que escrevia por querer ordenar no papel o que andava tão bagunçado na minha cabeça. E estava, em parte, certo. No começo, escrevia pra mim, apenas. Numa tentativa de extravasar. Aos poucos, fui compartilhando com pessoas mais próximas, que, para minha surpresa, consideravam grandes coisas o que eu escrevia. E se emocionavam até. Foi aí que descobri que emocionar é tão bom quanto se emocionar. Então, percebi que o que eu escrevo pode até ter sido escrito por mim, mas não é mais meu. É de quem quiser. Mesmo que eu ache que ali, no que escrevo, seja só eu, na verdade, somos todos nós que lemos e que nos emocionamos. Sou apenas um instrumento que tenta escolher as palavras certas pra passar o mais fielmente possível um sentimento que, tenho certeza, muitos sentem.

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Serviço

Lançamento do livro tenho uma página em branco, de Luiz Henrique Ramos (R$ 20)

Local: Vaporetto Container Bar – Rua Leopoldino Silva, 100, Parque Santana, Casa Forte, Recife

Data: 26/11/2014 (quarta-feira)

Horário: 20h