Autoral: A casa do polvo

Casa José Mariano, como é conhecida a Câmara de Vereadores do Recife

Casa José Mariano, como é conhecida a Câmara de Vereadores do Recife

José Mariano, a tua casa é do polvo
Que estende seus oito tentáculos,
Cada qual com um querer.

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O primeiro ergue seus novos coronéis
O segundo tapa a boca de quem fala
O terceiro afaga a face de pares particulares
O quarto rasga os papéis frágeis da lei
O quinto escreve contos para boi dormir
O sexto paralisa quem ousa se mover
O sétimo fecha as cortinas para o mundo.

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O último e mais forte tem meta especial:
Esmagar aquele que pensa
Ser o dono de tua casa.

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É que tua casa, José Mariano,
Do povo não pode ser,
Enquanto o polvo lá estiver.

Tiago Cisneiros

Explicação do poema: Na última segunda-feira (05 de maio), o presidente da Câmara de Vereadores do Recife, Vicente André Gomes, promoveu a votação do novo plano urbanístico para a região do Cais José Estelita, no Centro do Recife. A sessão aconteceu de forma extraordinária, sem prévia comunicação à população e com portas fechadas ao público que desejava acompanhar e se manifestar. Vereadores de oposição também foram censurados. A aprovação ilegal foi seguida, poucas horas depois, pela sanção do prefeito Geraldo Júlio, mesmo estando em viagem a São Paulo. Uma urgência incabível que demonstra o comprometimento do poder público da cidade com o setor privado, especialmente da construção civil, já que o novo plano urbanístico abre as portas para a construção do projeto Novo Recife, que consiste em 13 torres de até 40 andares em uma área histórica do Recife, à beira do Rio Capibaribe. O autor do Livro Leve Solto, Tiago Cisneiros, posiciona-se contra o Novo Recife, as ligações promíscuas entre o público e o privado, o desrespeito à participação popular e a gestão voltada para o interesse de poucos.

#OcupeEstelita #ResisteEstelita

Projeto “Poesia aos pedaços” espalha lirismo e reflexão sobre a vida no Recife

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Projeto criado e implantado no Recife será tema de apresentação em Lisboa, no início de fevereiro. Foto: Acervo Pessoal

As paredes têm ouvidos… E poemas. Pelo menos, no que depender do projeto Poesia aos pedaços, idealizado pela estudante de jornalismo Marina Maciel, piauiense de 22 anos. Desde o início de 2014, ela vem confeccionando e espalhando caixas recheadas com textos de diversos autores, em vias públicas e prédios do Recife, onde mora há uma década. No próximo dia 5, Marina estará apresentando a iniciativa em Lisboa, durante o 12º Congresso Luso-Afro-Brasileiro. Na volta, ela pretende realizar mais edições, valorizando novos escritores da terra e focando em segmentos, comunidades e públicos específicos.

A ideia do Poesia aos pedaços, além de disseminar a poesia e o hábito da leitura, é estimular a reflexão acerca do uso do espaço urbano. Não à toa, entre os movimentos que inspiraram a sua realizadora, estão os “ocupes” de Barcelona, Nova Iorque, Frankfurt e do Recife (no caso, o Ocupe Estelita, que contesta a construção de um grande empreendimento em uma área à beira do Rio Capibaribe, no Centro). “O objetivo é fazer repensar as nossas relações com a cidade”, explica Marina.

Marina pretende transformar o projeto em canal de divulgação de novos autores. Foto: Acervo pessoal

Aos 22 anos, Marina pretende tornar projeto um canal de divulgação de novos autores. Foto: Acervo pessoal

A vontade de transformar a cidade, aliás, foi um dos motivos que a levaram a perder a “vergonha” e tornar público o projeto. “Comecei em 2013, com um protótipo que deixei no meu quarto, porque achei que ninguém iria se interessar. Mas, como a ideia era mesmo atingir a rua e diante de incentivos de amigos que vinham me visitar, vi que deveria mudar”, lembra. A estreia “oficial”, então, aconteceu em fevereiro de 2014, com a instalação de uma caixa no Centro de Artes e Comunicação (CAC) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Coloquei lá e fiquei meio escondida, olhando as reações. Uma pessoa até tirou foto e falou na página do Facebook (clique aqui para acessar), elogiando e dizendo que saiu do CAC cheia de lirismo. No dia seguinte, porém, a caixa já não estava lá, o que me desanimou por um tempo. Depois, voltei a fazer.”

Desde então, Marina espalhou caixinhas em uma edição do Ocupe Estelita (para ela, a mais gratificante), em um encontro do coletivo Ahorta, em paradas de ônibus, nas ruas Amélia e Conselheiro Portela, ambas no Espinheiro, e na Avenida Agamenon Magalhães, no Derby. “O projeto tem várias edições. Como faço sozinha, não dá para ser algo contínuo. Então, penso bem antes de começar, planejo as colagens… É tudo bem artesanal”, afirma. Para montar uma caixa, a idealizadora reutiliza uma embalagem tetrapak, além de um cordão e recortes de revistas. No final, o objeto funciona como uma espécie de impressora analógica, em que o leitor puxa e destaca o poema da vez.

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Caixa funciona como impressora, em que leitor destaca o poema da vez. Foto: Acervo pessoal

Em cada caixa, são colocados cerca de 20 poemas – de preferência, um por autor. A seleção não segue critérios rígidos, abrangendo os mais diversos assuntos. “Cada pessoa se sensibiliza com uma coisa diferente, uma mensagem diferente. Já pensei em realizar edições temáticas, mas ainda não pus em prática”, revela Marina, que também pretende diversificar a origem dos textos espalhados. Por enquanto, ela vem recorrendo a artistas com algum reconhecimento local ou nacional, mas a ideia é aproveitar o Poesia aos pedaços para divulgar novos nomes da cena literária. “Gostaria que as pessoas sugerissem poetas e poemas, numa espécie de curadoria coletiva. Além disso, interessa-me bastante procurar jovens escritores da terra, que não tenham muito espaço, para isso.”

Outro plano de Marina é levar o projeto a comunidades de baixa renda do Recife, como a Ilha de Deus. Nesses casos, no entanto, ela cogita mudanças no formato original, de modo a valorizar imagens nos papéis “impressos” pela caixa. “Nessas regiões, ainda há muita gente analfabeta. Então, pensei em convidar alguns artistas, para que fizéssemos uma edição diferente, com desenhos que transmitissem mensagens.”