Resenha: Crônicas de Jerusalém

Foto: Maria Eduarda Maia

* Por Maria Eduarda Maia

Como será a vida em um país em guerra? Como será a convivência entre dois povos tão diferentes? Quem nunca se perguntou como será viver na Terra Sagrada para as três maiores religiões do mundo?

Bom, essas questões sempre rondaram minha mente. A guerra entre judeus e palestinos está constantemente nos jornais e, com isso, a pergunta principal surge: como será o cotidiano das pesoas que vivem em Jerusalém? Uma amiga do estágio (um beijo, Mari!) chegou com a resposta da maneira mais lúdica que pode existir: um livro.

Guy Delisle, quadrinista canadense, é casado com uma médica da organização Médicos sem Fronteiras. Acompanhando a esposa, ou devido a seu próprio trabalho, ele morou nos lugares que mais atiçam a curiosidade humana, como Coreia do Norte, China, Mianmar e Jerusalém, e traduziu o seu cotidiano para a linguagem simples e cativante dos quadrinhos.

Entre os frutos desse trabalho, está Crônicas de Jerusalém. O livro resultou de uma dessas viagens em que Guy acompanhou a esposa em missão (desta vez, na Faixa de Gaza). Os dois filhos pequenos do casal também foram morar em Israel, durante o período. Na obra, o quadrinista narra com maestria o dia a dia de um dono de casa, em uma cidade dividida pela guerra e pelas religiões.

Abordando desde o fato mais simples (como se perder pelas ruas da cidade velha, passando pelo Muro das Lamentações e a Esplanada das Mesquitas) até os bombardeios constantes e os famigerados check points, o autor faz uma análise crítica da política, do comportamento social e da sua visão de mundo.

É possível enxergar, do ponto de vista de um estrangeiro, as colônias israelenses que ocupam a área dos palestinos, os conflitos religiosos e a presença maciça do exército judeu nas ruas – e até mesmo a construção do muro que divide a região. Guy, de uma maneira lúdica e leve, transporta o leitor, através dos seus quadrinhos, para o apartamento dos Médicos sem Fronteiras, para o trânsito de ida para a escola, e mostra como é viver em uma sociedade baseada em burcas e quipás. Tudo isso, também de forma crítica e questionadora.

A leitura flui com rapidez e as ironias são colocadas com uma maestria digna de poucos. Para quem acha que quadrinho era coisa de criança ou de super-herói, sugiro dar uma chance às histórias adultas e, principalmente, às Crônicas de Jerusalém. O preço é meio salgado (cerca de R$ 66), mas, considerando que o Natal está chegando, esta pode uma ser ótima opção de presente, até mesmo para fugir um pouco das prosas tradicionais.

Quanto as minhas perguntas sobre Jerusalém? Acho que só serão respondidas de verdade com a visita à cidade. Mas, para fechar esta resenha com alguma conclusão, faço minhas as palavras de Guy: “E na Terra Santa para três religiões, obrigado, meu Deus, por eu ser ateu”.

*Maria Eduarda Maia tem 21 anos e é estudante de direito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

O Poderoso Chefão… O livro

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Para desespero de 9 entre 10 pessoas que me escutam dizer isto, repito: “Nunca assisti a O Poderoso Chefão“. Nem o 1, nem o 2, nem o 3. Tampouco sei explicar o motivo. Agora, no entanto, o que podia ser motivo de vergonha tem lá o seu charme. Afinal, também já posso me considerar uma das poucas pessoas que leram O Poderoso Chefão antes de ver o filme. Sim, eu também me surpreendi ao descobrir, mas o grande clássico do cinema realmente foi inspirado em um livro.

A obra é assinada por Mario Puzo, um descendente de italianos que nasceu em Nova Iorque, em 1920, e fez história escrevendo sobre a máfia. A sua obra-prima, que seria adaptada pelo diretor Francis Ford Coppolla, foi lançada em 1969 e conquistou o público. Posso dizer, com convicção, de que não foi à toa. O livro, realmente, é daqueles que a gente não quer largar, mesmo com sono ou com fome.

O primeiro mérito é a própria história. Nunca vi os filmes, mas sei que eles vão muito além do que existe na publicação de Puzo. Exemplo? No livro, não há qualquer acontecimento relevante em Cuba. Mesmo assim, o enredo é bastante atraente, envolvendo costumes, negociações, violência, histórias de personagens secundários, as reviravoltas na Família Corleone, etc. E a habilidade de Puzo em entrelaçar tais planos termina sendo, justamente, o segundo ponto a merecer elogios. O autor norte-americano consegue esmiuçar, com encanto, as passagens dos diversos componentes da trama e, ao mesmo tempo, relacioná-las aos grandes temas, que conduzem O Poderoso Chefão.

Entre as técnicas bem utilizadas por Mario Puzo, está a de encerrar capítulos deixando aquele “gostinho de quero mais”. Muitos escritores vêm tentando adotar essa estratégia, mas não é tão simples quanto parece. Outra característica que pede destaque é a capacidade do autor de descrever, sem cansar o leitor, alguns episódios da história, notadamente os de ação e violência. Acerta, também, muitas vezes, na exposição dos sentimentos dos personagens, sobretudo através dos diálogos.

Como ponto negativo, mesmo desconhecendo os filmes, acho que não dá para ignorar a falta de desdobramentos da história. Quase todo mundo conhece um pouco sobre a sequência cinematográfica da obra, o que pode gerar um certo desconforto, uma sensação de que o livro não está completo, de que deveria ter algo mais. Como alento, fica a informação de que o próprio Mario Puzo colaborou na produção dos roteiros que levaram os Corleones para as telonas e telinhas do planeta.

Ficha técnica

Título: O Poderoso Chefão

Autor: Mario Puzo

Editora: Record

Páginas: 461