Três poemas e um filme para se despedir de Manoel de Barros


A poesia, a natureza e a simplicidade das coisas estiveram entre os principais temas tratados pelo autor mato-grossense

A poesia, a natureza e a simplicidade das coisas estiveram entre os principais temas tratados pelo autor mato-grossense

Os últimos meses não têm sido fáceis para os amantes da literatura nacional. Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves já haviam nos deixado. Nesta quinta-feira, 13 de novembro, foi a vez do poeta mato-grossense Manoel de Barros, de 97 anos. Por volta de 8h, horário de Brasília, depois de quase duas semanas internado, ele morreu em um hospital de Campo Grande, com falência múltipla de órgãos.

Nascido em 1916, em Cuiabá, Manoel de Barros publicou 18 livros de poesia e obras infantis e autobiográficas. Entre eles, estão Poemas Concebidos sem Pecado, Gramática Expositiva do Chão, Livro de Pré-coisas, O Guardador de Águas e O Fazedor do Amanhecer. Pelos dois últimos, lançados respectivamente em 1989 e 2001, recebeu o Prêmio Jabuti, importante reconhecimento da Câmara Brasileira do Livro.

Como homenagem de despedida ao autor, o Livro Leve Solto selecionou três dos seus poemas. De coração, vale a pena conhecer: há versos belíssimos, leves e surpreendentes.

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Para encerrar a despedida, o curta-metragem Caramujo-flor, inspirado na obra de Manoel de Barros e dirigido por Joel Pizzini. Lançado em 1989, o filme tem nomes de peso no elenco, como Ney Matogrosso, Rubens Correa, Aracy Balabanian, Almir Sater e Tetê Espíndola.

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